Você caro leitor, que lê está coluna e também a revista Exame - além de outras publicações nacionais e estrangeiras, inclusive livros inteiros - já deve conhecer Dilbert. Claro. Ele é o novo personagem de quadrinhos, que, com as outras pessoas dramáticas, o cachorro Dogbert, o chefe sem nome e os demais funcionários do escritório de uma grande empresa anônima, têm feito enorme sucesso nos Estados Unidos e em outros países - inclusive o Brasil. São todos criação de Scott Adams, um desenhista sem muita vocação que - antes de tornar-se milionário - passou mais de uma década como funcionário nos escalões intermediários da Pacific Bell, uma das empresas que faziam parte do grupo multinacional gigante da AT&T. Seu primeiro livro (que existe em tradução brasileira) - The Dilbert Principle - ficou meses na lista dos best-sellers do New York Times. E o segundo vai pelo mesmo caminho.
Evidentemente, Adams inspirou-se nas próprias experiências, vividas nos supostamente imensos escritórios da AT&T, povoados por pessoas e cubículos igualmente anônimos, para produzir uma enorme quantidade de charges - aparentemente engraçadas - sobre a vida cotidiana e os meandros do processo decisório nas grandes empresas.
Mas é só a aparência. Por trás da ironia, a meu ver, esconde-se a crítica mais contundente já formulada contra o sistema norte-americano de management. E a seriedade disso é que Adams faz sucesso, colaborando em jornais comprometidos com o sistema, como a Wall Street Journal e o New York Times, o que prova que são os próprios empresários e executivos que estão percebendo, no seu trabalho, mais do que uma simples sátira bem-humorada.
Segundo Adams, por mais que se esforce em criar situações completamente absurdas para suas tiras, a realidade das grandes empresas cada vez mais suplanta a ficção á- e isso é comprovado pelos milhares de e-mails que recebe diariamente (em [email protected]) narrando histórias de humor (e de terror) ocorridas nos escritórios dessas empresas em todo o mundo.
Por que as empresas são assim absurdas? Adams responde: porque as pessoas são idiotas. As pessoas não são sempre idiotas, mas o são - segundo Adams - na maior parte do tempo, pois ‘‘a vida moderna é muito complexa para alguém conseguir manter-se esperto o tempo todo’’. Mas, se isso for verdade, como, então, se consegue fazer alguma coisa produtiva nas grandes corporações? De novo, Adams é incisivo: porque as besteiras que são cometidas o tempo todo tendem a se cancelar umas às outras e pelo simples gigantismo e pela inércia dos grandes volumes, elas acabam conseguindo atingir os seus objetivos... E tudo dentro de uma aparência de normalidade. Mas - continua o advogado do diabo - isso é ridículo: qualquer pessoa se daria conta dos comportamentos enlouquecidos que o desenhista atribui aos seus personagens. Ah, é? - retruca o implacável Adams - então olhe em volta e veja como se comportam os membros da sua própria família, antes de fazer afirmações assim ingênuas...
Para Adams (e concordo com ele) a melhor coisa aparecida entre as teorias de management havia sido o ‘‘Princípio de Peter’’ - que postulava que os funcionários de uma empresa eram promovidos de cargo em cargo, até estacionarem definitivamente nos seus ‘‘níveis de incompetência’’. Não mais! - proclama Adams. Agora, os empregados incompetentes são promovidos ou instalados diretamente em cargos de direção. Por que? Porque esses são os postos em que causam menor dano - já que todo o trabalho de verdade ou é desempenhado no topo, pelos danos do negócio, ou na base, pelos peões.
Parece loucura? Pois acho que é apenas o que as grandes verdades, quando reveladas, parecem. Mas quem - como eu, e você amigo leitor - já trabalhou em grandes empresas, nacionais ou multinacionais, sabe que em grande parte as coisas são assim mesmo.
Agora que ficou rico Scott Adams recusa-se a criar uma empresa para gerir os seus negócios: permanece sozinho, com seus vários computadores e terceiriza tudo. Para Adams, na teoria e na prática, a única forma de ser competente no mundo moderno é ter os controles de tudo nas próprias mãos.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e MarketingJosé Roberto Whitaker Penteado
‘‘Qualquer idiota que possua um laptop é capaz de escrever um livro sobre negócios e ficar rico’’ - Scott Adams

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