O Plano Real acabou?
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de setembro de 1997
Luiz Bordenowski 
Contrariando aqueles que fazem apologia ao Plano Real, especialmente nos espaços da propaganda gratuita dos partidos que sustentam o governo de Fernando Henrique Cardoso, o ministro da fazenda, Pedro Malan, admitiu, pela primeira vez, que está esgotado o poder de redistribuição de renda da população brasileira, causado pelo projeto de estabilização econômica, razão pela qual outras ações serão necessárias por parte do governo e da sociedade para manter o crescimento do País.
Indagado acerca do arrefecimento do impacto do real, Pedro Malan foi enfático ao dizer que ninguém, em sã consciência, poderia imaginar que a estabilidade do poder de compra da moeda nacional, uma vez alcançado, levaria a um processo continuado de melhoria, da distribuição de renda e riqueza no País. Malan admitiu ainda que é muito pouco o que se conseguiu até agora para minimizar os efeitos da concentração de renda no Brasil.
As declarações do ministro da Fazenda colidem frontalmente com a retórica do presidente Fernando Henrique Cardoso, que continuamente tem afirmado que o Brasil mudou para melhor, o crescimento econômico continua e a justiça social, através da distribuição de renda e riqueza no País, já fazem parte da realidade dos brasileiros. Sobre isto, ao responder pergunta da imprensa, disse Malan que quem disser que essa situação pode mudar em dois anos é mentiroso.
Sobre a continuidade do Plano Real, Pedro Malan afirmou que os três objetivos básicos do governo Fernando Henrique Cardoso dizem respeito ao controle da inflação, garantia em 1998 da taxa de crescimento sustentado acima dos índices já alcançados e, finalmente, assegurar a melhoria continuada das condições de vida da população neste penúltimo ano de administração, haja vista as eleições do ano que vem.
Quanto aos benefícios do plano de estabilização econômica, o ministro da Fazenda, afinado com o presidente Fernando Henrique Cardoso, citou o desgastado exemplo da manutenção do preço da cesta básica, do crescimento da venda de televisores, cujos compradores seriam os pobres, que estariam adquirindo seus primeiros aparelhos. Malan não se reportou ao crescimento da venda de frangos ou à aquisição de dentaduras, as duas grandes vedetes do presidente da República.
No que diz respeito à recessão e ao desemprego que assolam o país, Pedro Malan foi tímido ao enfatizar que em 1995 o governo foi obrigado a botar o pé no freio porque o consumo estava muito alto. Nada disse o ministro sobre o desequilíbrio da balança comercial, os juros abusivos praticados no mercado e a sobre valorização da moeda nacional, fatores que têm sufocado a indústria brasileira, que não tem tido condições de competir com as estrangeiras.
As declarações de Pedro Malan, por ocasião da abertura de 31ª Convenção Nacional de Supermercados, evidenciam que outras medidas deverão ser adotadas pelo governo, senão nesta administração certamente na próxima, haja vista que o Plano Real não poderá ser sustentado pela recessão e desemprego, fatores geradores da pobreza cada vez mais presente no País, o que é corroborado pelo infindável número de excluídos, descamisados que invadem terras no campo e as periferias das grandes cidades brasileiras.
Enquanto nesses três anos de governo se discutiu apenas as reformas Administrativa e da Previdência, isso vizando enxugar as despesas da máquina pública, a Tributária foi deixada de lado, justamente a mais importante do país, pois atrás dela estão os interesses de empresários e trabalhadores, pessoas que estão impossibilitadas de produzir e ganhar o pão de cada dia, premiadas que estão pela voracidade do fisco, dos juros elevados e da injusta concorrência dos produtos estrangeiros, subsidiados nos países de origem.
Quanto ao rescaldo do Plano Real, estão aí, a deflação, que não se comemora, pois é tão grave quanto a inflação, a oferta sem procura, os juros elevados e a falta de dinheiro no mercado em razão do esvaziamento do bolso do consumidor. Nesse processo estão ganhando os agiotas internacionais, pois nossos bancos e indústrias estão quebrando em ritmo preocupante. Nesse contexto estão os ramos de autopeças, têxtil, moveleiro e outros.
Embora Pedro Malan considere normal a queda da taxa de crescimento do consumo, seria de se perguntar ao ministro da Fazenda até que nível isso poderá chegar, tendo em vista o elevado custo e o risco do processo, que nem o governo ou a sociedade poderão suportar por muito tempo, já que a substituição da inflação pela recessão também coloca em risco o crescimento do país, atualmente carente de postos de trabalho, modernização do parque industrial e investimentos, sem o que nunca se construirá uma sociedade justa, nos moldes prometidos pelo presidente da República na sua campanha eleitoral.
- LUIZ BORDENOWSKI é do Centro de Letras do Paraná


