Os potes de mel “made in Brazil” ocupam as prateleiras mais saudáveis dos hipermercados e das casas de produtos naturais de costa a costa nos Estados Unidos. É uma relação antiga, bem sucedida e em expansão. De acordo com a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel, nos últimos cinco anos, mais de três quartos das vendas no Exterior tiveram como destino a superpotência, o que representa 53% de toda a produção nacional. Em 2024, o faturamento do segmento alcançou US$78 milhões, 16% a mais que no ano anterior.

Desde que a ideia de que o mel faz bem para a imunidade do organismo humano se disseminou nas redes sociais durante a pandemia do novo coronavírus, a apicultura (produção feita por abelhas de ferrão) e a meliponicultura (por abelhas sem ferrão) entraram no radar de oportunidades do agronegócio do Brasil, um país cujos produtores se gabam de colmeias sem doenças crônicas e não dependentes de medicamentos nos enxames, um ônus em muitos países.

O amplo estoque de áreas naturais protegidas e as vastas áreas de reflorestamento comercial que baseiam a produção de papel e celulose coexistem no território brasileiro e são diferenciais inquestionáveis. O resultado desta diversidade, explicam os técnicos, é o sabor único colhido de uma flora diversificada, fator decisivo de competitividade no mercado.

Mas este cenário animador se desfez duas semanas atrás com o anúncio do chamado “tarifaço”, uma taxa de 50% de imposto em qualquer produto brasileiro que ingresse no mercado norte-americano.

Em algumas localidades do Paraná, como Arapoti, município dos Campos Gerais com tradição na criação de abelhas, o assunto é dominante, apesar da entressafra nos apiários, deslocados temporariamente para serem carregados nos laranjais paulistas.

‘BAITA PROBLEMA’

A cadeia das abelhas no município, também conhecido pelas áreas de florestas plantadas, faz girar um volume de recursos na ordem de R$11 milhões, empregando 1.100 pessoas. Por telefone, o presidente da Associação de Apicultores e Meliponicultores Campos Floridos, Ricardo Rodrigues Pedroso, porta-voz de um grupo de 280 famílias que fazem do mel um meio de sobrevivência - 60% delas como fonte de renda principal, disse à FOLHA que entre tantas dúvidas que perturbam o setor, há pelo menos uma certeza incômoda. “O importador não vai absorver a taxação, o que é um baita problema para gente.”

Ele disse que a orientação nas últimas semanas é cautela para pegar financiamento bancário para a próxima safra, no fim do ano, quando os apiários retornam para o município para aproveitar primeiro a florada do capixingui e depois a florada do eucalipto. “Para o custeio não tem jeito, temos que viajar constantemente para São Paulo neste período… Já para os investimentos para a próxima safra, a gente está aconselhando a pensar bastante antes de emprestar do banco.”

Dias depois da cartada de Trump que assustou a mesa, a associação comandada por Pedroso fez circular uma nota pública na qual “manifesta preocupação”, lembra que os Estados Unidos são “parceiros fundamentais para o crescimento e valorização do trabalho dos apicultores brasileiros” e que a taxação coloca em risco “não apenas a competitividade do mel brasileiro, reconhecido mundialmente pela sua qualidade e pureza, mas também a sobrevivência de milhares de produtores, que dependem diretamente das exportações para manter suas atividades”.

A nota pede a reversão da medida através do diálogo e ressalta que é “essencial” preservar a relação histórica de parceria comercial, “garantindo condições justas de mercado e valorizando os apicultores”.

As empresas exportadoras estão praticamente com as compras paralisadas em julho. A Supermel, de Maringá, esperava embarcar este ano 10 mil toneladas (o mel é embarcado em tambores de 290 quilos), mas a previsão está ameaçada. “Compramos mel do Brasil inteiro, principalmente da produção de agricultores familiares. Se o tarifaço persistir, o impacto social será absurdo”, avalia Carlos Alberto Domingues, um zootecnista que atua no ramo há mais de três décadas, duas delas no comércio internacional.

De acordo com a Supermel, as empresas americanas pediram para que nada mais seja embarcado até que as negociações entre os dois países avancem. “Eles precisam muito deste mel mais puro do Brasil. Porque com este perfil ninguém é capaz de fornecer este volume que fornecemos. Isso nos dá esperança”. Segundo ele, se a tarifa baixasse para um patamar ao redor de 20%, a movimentação seria retomada porque os ganhos ainda se manteriam razoáveis.

PRESSÃO DOS EUA

Pedroso, representando o pensamento de algum modo realista que passou a dominar o ambiente dos produtores, concorda que uma redução significativa da tarifa já seria uma situação positiva diante da “gravidade” da situação e aposta que o principal motivo para uma reversão pode ser a pressão dos importadores americanos sobre o governo Trump. Mas se a animosidade crescer, o risco aumenta. “Também pode ser apenas a ponta do iceberg, caso o Brasil não tenha habilidade na negociação.”

Uma das possibilidades aguardadas para esta semana e que foi uma reivindicação comum de muitos setores exportadores ao vice-presidente Geraldo Alckmin é a tentativa de retirada do setor de alimentos do tarifaço.

“Quem importa mel entende que tarifas altas afetam toda a cadeia, o que gera perda de lucratividade generalizada, inclusive para empresas norte-americanas. É um exemplo de como o diálogo pode mudar a situação”, avalia Pedroso, contrário a retaliações por parte do governo brasileiro.

Experiente no comércio global, Domingues não hesita em dizer que a demanda vai permanecer aquecida nos próximos anos caso o tarifaço não se torne um fato consumado e que, “na verdade, o Brasil não dá conta de produzir o que o mercado americano consome e se produzirmos muito mais, venderemos muito mais”.

O especialista do Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento, o veterinário Roberto Carlos Andrade e Silva acredita que “pela sua dimensão e rica flora e florestas por todo o país (muitas ainda preservadas), o Brasil tem potencial para produzir muito mais”. De acordo com o IBGE, a produção em 2023 foi de mais de 64 mil toneladas, com um valor bruto de produção de pouco menos de R$1 bilhão. “Existe ainda um grande potencial na apicultura migratória e na polinização de cultivo agrícolas”, reforça.

TERCEIRO NO RANKING

O Paraná é um exportador relevante. Segundo o último boletim do próprio Deral, no primeiro semestre o Estado ocupou a terceira posição no ranking da exportação de mel natural, com receita de US$12,3 milhões, volume de 3.814 toneladas e preço médio de US$3,24 o quilo. Em relação ao primeiro semestre de 2024, as receitas cresceram 196,2% e o volume, 125%.

A liderança das exportações fica com Minas Gerais, com receita de mais de US$ 15 milhões, seguido pelo Piauí. Santa Catarina completa a lista dos principais estados exportadores.

O principal destino para o mel brasileiro exportado nos seis meses de 2025 (84,1% de todo volume exportado ou 19.219 toneladas) foi justamente os EUA, com um volume de 16.170 toneladas, uma receita cambial de US$ 52,211 milhões e preço médio de US$ 3,23/kg (um valor 28,1% maior em relação a 2024). Além dos EUA, outros principais países importadores do mel brasileiro incluem o Canadá, o Reino Unido e os Países Baixos.

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