O papel da indústria na integração à Alca
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2001
Max Schrappe 
Em 1º de janeiro de 2006, ou seja, daqui a apenas quatro anos, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) estará oficialmente em vigor. Paulatinamente, a partir de então, passarão a cair as barreiras alfandegárias, tributárias e não tributárias, prevalecendo cada vez mais as leis de mercado e a competitividade nos 42 milhões de quilômetros quadrados das Américas segunda maior massa continental do planeta. Nas 34 nações do grande bloco vivem cerca de 800 milhões de habitantes, para um PIB de quase US$ 15 trilhões, pouco menos da metade do PIB mundial.
O setor industrial, no contexto de uma sociedade cada vez mais urbana e dependente da tecnologia, tem peso muito grande no sentido de reduzir as disparidades dos níveis de competitividade entre Brasil e América Latina e as economias do Canadá e, principalmente, Estados Unidos. A grande lição de casa da indústria latino-americana é investir em tecnologia, máquinas, equipamentos e formação de recursos humanos. Também será necessário considerar parcerias e alianças estratégicas entre indústrias, especialmente as de pequeno e médio portes, de todo o continente, para se agregarem ganhos de competitividade, desde a produção até a logística de distribuição e venda.
A indústria gráfica já tem adotado medidas nessa direção. Está articulada, por meio da Confederação Latino-Americana das Indústrias Gráficas (Conlatingraf), no sentido de se preparar para a globalização plena e vigência, a partir de 2006, da Alca. A entidade busca aglutinar as 42 mil gráficas do Continente, por intermédio de suas associações nacionais, visando ao seu fortalecimento; promove e difunde a formação profissional e contribui para o acesso à tecnologia. Além disso, é um pólo de aproximação e intercâmbio empresarial e defende, especialmente no âmbito da Alca, salvaguardas comerciais e acordos estratégicos.
Hoje, as entidades de classe não podem mais manter postura reativa, limitada à representatividade institucional de um setor. Têm de atuar de forma pró-ativa, visando à competitividade das empresas sob seu guarda chuva. Independentemente de teses em contrário, a globalização é, antes de mais nada, um fenômeno tecnológico, que precedeu as transformações políticas e das normas do mercado internacional. Participar soberanamente dessa nova ordem mundial, portanto, implica estar incluído nas tecnologias e processos mais atuais. E, nesse aspecto, a indústria gráfica é uma das que mais avançou, incorporando os recursos da informática, eletrônica e transmissão digital de dados. Hoje, uma editora do Brasil pode enviar arquivo digital a uma gráfica em Hong Kong, que imprimirá o livro, se necessário, com o requinte de dados variáveis na capa.
O setor gráfico avança rapidamente no contexto da globalização. Apresenta expressivo fluxo de transações internacionais e, embora constituído por maioria de pequenas e microempresas, tem grandes gráficas transnacionais já presentes no mercado brasileiro e latino-americano. Em 2001, o Brasil exportou US$ 175,4 milhões (aumento de 9,8% em relação a 2000) e importou US$ 258 milhões (menos 3,6% em comparação com o ano passado) em produtos gráficos.
O grande desafio do setor, a partir de agora exemplo que também se aplica a outros segmentos industriais é obter ganhos de produtividade, conforme pode ser observado nesta análise: o número médio de trabalhadores por gráfica é muito semelhante em todo o mundo. Na União Européia, há cerca de 56 mil gráficas, que empregam 820 mil trabalhadores, ou seja, média de 15. Nos Estados Unidos, há 20 funcionários por gráfica. Nos maiores países latino-americanos, a média é de 14. Porém, a relação média de faturamento por funcionário, que no Brasil (e o perfil Continental é semelhante) é de US$ 33 mil, nos Estados Unidos é de US$ 134 mil. Ou seja, a diferença é imensa em termos de produtividade.
Assim, aumentar a produtividade é um passo muito importante para dotar o setor gráfico latino-americano de níveis adequados de competitividade. Entretanto, o avanço do setor também depende de fatores ligados às políticas públicas e à macroeconomia de cada nação e do Continente. No mercado interno de cada país há grande potencial de crescimento, que se pode diagnosticar por meio de uma equação interessante: nos Estados Unidos e na Alemanha, a participação do setor gráfico no PIB é 3% e 4%, respectivamente. No Brasil, maior economia latino-americana, é de apenas 1%. Fica claro que, proporcionalmente, norte-americanos e europeus consomem mais comunicação gráfica ou seja, cultura, conhecimento e informação do que os latino-americanos. Este é um sintoma das dívidas sociais de nossas nações, que precisam encontrar solução para ampliar os contingentes populacionais incluídos nos benefícios da economia.
O Brasil e a América Latina não podem temer o inexorável, ou seja, o livre comércio e a abertura das fronteiras. Tampouco devem reivindicar subsídios, reserva de mercado e outras práticas extemporâneas, mas sim exercitar a responsabilidade de se preparar para a nova realidade. A América Latina e demais nações não-latinas do continente somam 33 países (12 da América do Sul, 20 da América Central e Caribe e mais o México). Juntas, estas nações têm 502 milhões de habitantes e PIB superior a US$ 2,5 trilhões. Estes números credenciam a região a integrar a Alca com dignidade e soberania, mas é preciso trabalhar muito para isso.
- Max Schrappe é vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Confederação Latino-Americana da Indústria Gráfica (Conlatingraf)


