O país que importa - Max Schrappe
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de setembro de 1997
Max Schrappe 
O Japão teve um superávit comercial, em 1996, de US$ 113,1 bilhões. Estes números, que muito contribuiram para que o seu PNB atingisse a estratosférica cifra de US$ 4,62 trilhões, não têm como principal causa a imposição de barreiras alfandegárias. Embora os japoneses façam restrições pontuais a alguns itens da pauta de importações, a verdade é que os seus portos, no contexto da globalização, estão entre os mais abertos às nações amigas. Independentemente da alta tecnologia e custo baixo que agregam competitividade a seus produtos, o Japão têm um grande trunfo: a consciência cívica da população, que prestigia o produto nacional.
Este exemplo é importante para o Brasil, pois o déficit da balança comercial, pelo segundo ano consecutivo, evidencia as imensas desvantagens competitivas com que as empresas nacionais têm enfrentado a globalização. Evidentemente, essas desvantagens têm como principal causa o descompasso entre a liberalização comercial empreendida pelo país nesta década e o atraso das reformas modernizadoras. No entanto, a população brasileira, certamente estimulada por um marketing agressivo, está valorizando muito os produtos importados, sem avaliar se eles são melhores e/ou mais baratos do que os similares nacionais. Não se pode ignorar que essa tendência, cada vez mais acentuada, tem um peso significativo no déficit comercial.
É fundamental que a sociedade desenvolva a consciência de que, ao prestigiar o produto nacional, está estimulando e contribuindo para o crescimento do PIB brasileiro e a geração de empregos internamente. Ao se comprar um produto importado, incentiva-se a economia e a abertura de postos de trabalho em outros países. Disseminar esse conceito é muito importante, pois o déficit do comércio exterior é uma das causas do recrudescimento do desemprego, um dos mais preocupantes problemas verificados nos três anos do Plano Real. Não se trata, absolutamente, de adotar uma postura xenófoba e tampouco de se reivindicar a adoção de medidas protecionistas. O que se torna premente é que a sociedade entenda definitivamente, numa atitude cidadã, o seu papel na solução dos próprios problemas, como o desemprego, que aflinge praticamente todas as famílias brasileiras.
É preciso entender o processo histórico e econômico em que o país está inserido. Nossa economia emergiu de um longo período de inflação alta e recessão e mergulhou num ambiente de estabilidade monetária. Todos esperavam que essa mudança fosse imediatamente respaldada pelas reformas modernizadoras, no âmbito da revisão constitucional. Isto, porém, não aconteceu, gerando um grande gargalo para toda a economia brasileira. Na ausência de medidas efetivas para a redução do déficit público e desoneração fiscal das atividades produtivas, mantém-se a âncora cambial e os juros altos como ferramentas artificiais de controle da inflação. O ajuste fiscal - previsto na concepção original do plano de estabilização econômica - se quer foi uniciado. Então, repetindo-se vícios históricos, o governo lança mão de improvisações; como a CPMF, que oneram ainda mais as atividades produtivas. E, ao que tudo indica - e, por mais absurdo que seja -, a CPMF poderá transformar-se de provisória em permanente.
Foi exatamente neste contexto que o parque produtivo nacional viu-se obrigado a enfrentar os desafios da globalização, competindo com empresas de países onde as condições internas são muito mais favoráveis. Para reverter esse quadro, é imprescindível a mobilização da sociedade brasileira, em duas frentes básicas. Em primeiro lugar, pressionando, democraticamente, o governo e o Congresso no sentido de agilizar as reformas e, além isso, garantindo que as emendas constitucionais sejam adequadas à nova realidade mundial. Medidas pouco abrangentes e paliativas não solucionarão os problemas; em segundo lugar é necessário prestigiar o produto nacional. O momento é crítico e decisivo. Por isso, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), que representa um setor com interfaces diretas com todos os demais segmentos, lançará, em breve, a campanha Não Importe, Compre Brasil. Mais do que nunca, é vital compreender que, para todo o conjunto da nossa sociedade, o país que importa é o Brasil...
- MAX SCHRAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (ABIGRAF) e primeiro vice-presidente da FIESP/CIESP.


