O negócio do século
Miguel Ignatios
O recente leilão da privatização das estatais componentes do Sistema Telebrás, realizado na quarta-feira da semana retrasada, foi um sucesso e causou algumas surpresas, como, por exemplo, os vencedores da telefonia fixa (Telesp) e da celular, respectivamente, Espanha e Portugal. Esse leilão marcou o fim da era dos monopólios e ainda garantiu a entrada de mais US$ 22 bilhões na economia do País.
O Estado-empresário, finalmente, sai de cena para dar vez ao Estado regulador. Já não era sem tempo. Estamos no limiar de um novo século, no qual tecnologia, concorrência, preço, qualidade e movimentação rápida no cenário de fluxo de capitais terão papel fundamental a desempenhar. Em tal cenário obviamente não se encaixam as estatais.
Falou-se muito contra e a favor das privatizações, principalmente de estatais pertencentes a setores considerados estratégicos para o desenvolvimento do País (mineração, petróleo, siderurgia, energia elétrica e telecomunicações). Na verdade, nenhum dos dois lados conseguiu explicar com clareza o que tal conceito - dos setores estratégicos - significava para eles. A experiência tem mostrado que quando isso acontece é sempre para esconder interesses (nunca assistidos com a necessária transparência) meramente cartoriais.
Nesse sentido, a privatização das estatais do Sistema Telebrás realmente será um marco importante. É que pela primeira vez na história das privatizações brasileiras ocorreu de fato a associação de grandes grupos estrangeiros com congêneres nacionais e também com grandes bancos privados. Pode-se até mesmo dizer que a globalização foi trazida para o País pelo interesse despertado pelas estatais do setor de telecomunicações.
Em outras palavras, apenas os setores de energia e de telecomunicações conseguiram de fato atrair investidores estrangeiros para o País. Antes disso,
os grandes grupos privados brasileiros preferiram aliar-se aos fundos de pensão para controlar principalmente as siderúrgicas privatizadas (CSN, Acesita e Vale do Rio Doce, dentre outras).
Aparentemente o poder de fogo dos fundos de pensão está em declínio por dois motivos: os valores mínimos fixados pelo BNDES pelas empresas leiloadas foram bem mais elevados do que os das outras estatais anteriormente privatizadas; e a baixa liquidez do mercado de ações, no qual os grandes fundos de pensão aplicam considerável parte de suas reservas técnicas.
A pequena participação dos fundos de pensão nos setores de telecomunicações, de energia e, no futuro, no de petróleo é uma novidade muito significativa que passou despercebida aos olhos dos analistas da grande mídia. De fato, a privatização das estatais brasileiras até recentemente não passou de uma reserva de mercado de alguns setores considerados lucrativos para aumentar ainda mais o já fabuloso patrimônio dos grandes fundos de pensão (Previ, Petros, Sistel, Cesp, dentre outros).
Curiosamente, todos eles representantes de funcionários das maiores estatais brasileiras. Em outras palavras, o que aconteceu até a privatização das teles, foi uma privatização apenas parcial, à moda brasileira, isto é, financiada em boa parte por recursos da estratocracia (uma casta que soube enriquecer-se às custas dos repasses dos benefícios das empresas públicas para proveito próprio). Ao que tudo indica, parece que tal modelo já se esgotou.
Bem, daqui para a frente, deverá começar a privatização para valer, com participações cada vez maiores dos grandes grupos privados e dos bancos brasileiros, consorciados ou não, com investidores estrangeiros.
Por enquanto, estão ainda excluídos do processo de privatização os cerca de 40 milhões de brasileiros que trabalham na iniciativa privada. É preciso incluí-los de alguma forma.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).

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