Acesso a mapas, games, compra de passagens aéreas, mensagens instantâneas e, agora, até aulas de inglês. Esses são alguns dos serviços que vêm sendo apresentado pelas operadoras de telefonia celular aos seus clientes tanto para evitar que eles mudem de empresa como para incrementar a receita com a transmissão de dados. Essa tendência tem incentivado o fortalecimento de empresas que produzem e integram aplicativos, com grande potencial de crescimento no Brasil. ''Vai existir uma grande indústria de aplicativos para celulares no Brasil. Hoje, já existe um 'ecossistema' pequeno de empresas. Mas não tenho dúvidas que o futuro é por aí'', afirma o diretor-presidente da consultoria A.T.Kearney, Raul Aguirre.
O motivo de tanta certeza é que ocorre atualmente um fenômeno mundial de queda da receita das operadoras móveis e fixas com a transmissão de voz, sem contar o grande impacto que a migração do computador para os celulares de ferramentas como o Skype, software que permite troca de dados de voz por meio da internet, pode causar às operadoras, o que já é uma realidade na Europa. ''No Brasil, ainda há previsão de crescimento da receita com a transmissão de voz. Mas a tendência é que se torne cada vez menor, transformando-se em uma commodity'', explica Julio Puschel, gerente de consultoria para a América Latina do Yankee Group.
A Spring Wireless é uma das empresas que, em oito anos, cresceu a ritmo chinês nesse mercado. A empresa faz aplicativos para o usuário final, desenvolvendo jogos, por exemplo; campanhas de marketing pelo celular para empresas do varejo; soluções de mobile banking e para integrar força de vendas de uma companhia. ''Comecei com nenhum empregado em 2001. Em seis meses, contratamos 30 empregados. E, hoje, a empresa tem 600 pessoas. Nosso faturamento cresce a taxas de 70% ao ano'', diz Marcelo Condé, fundador e presidente da companhia.
A empresa também acaba incentivando a criação de outras companhias que trabalham em parceria no processo de desenvolvimento de softwares para celulares. A Spring, geralmente, conta com outras cinco empresas parceiras. Do total de funcionários, 400 pessoas trabalhando nas operações da empresa nos Estados Unidos, Europa, Hong Kong e países da América Latina, de onde vêm 40% da receita da empresa. ''O mercado brasileiro está em seus momentos iniciais, e apostamos num maior crescimento.''
Oportunidades
Uma forma de se avaliar o potencial de crescimento do mercado é comparar o quanto que a transmissão de dados representa na receita da operadora. Segundo Condé, na Ásia e no Japão, a participação da transmissão de dados na receita das operadoras é da ordem de 40%. Nos Estados Unidos, de 25% a 30%. E, no Brasil, de 7% a 10%. ''Mas é interessante ver a evolução da curva de desenvolvimento dos serviços de valor agregado nesse mercado. A AT&T (operadora americana) elevou sua receita com transmissão de dados de 10% para 30% em dois anos e meio. Claramente é uma tendência que eu espero que ocorra no Brasil.''
A M4U, outra empresa do setor, criada em setembro de 2000 numa incubadora de empresas da PUC do Rio de Janeiro, também aposta em crescimento ainda maior. ''Entendo que, em 2010, o mercado de aplicativos para celulares no Brasil deve começar a esquentar, embora atualmente ainda tenhamos alguns obstáculos a vencer'', explica Frances Malta Tanure, diretora de Mídia e Entretenimento da companhia. Em nove anos, o número de funcionários da empresa passou de cinco para 130 pessoas. A empresa desenvolve soluções para levar para o celular download e streaming de música (música completa, ring back tone e ringtones em geral); filmes digitais on demand; download de vídeos; imagens e jogos; aplicativos de esporte e música; alerta de gols e noticias.
Desafios
Segundo Aguirre, da A.T. Kearney, o grande desafio para o crescimento dessa indústria é o poder aquisitivo da população. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o número de celulares em setembro no País chegou a 166,1 milhões de aparelhos, mas 82,21% são pré-pagos. Além disso, apenas 4 milhões de aparelhos são de terceira geração (3G), que permitem aos clientes a navegação pela internet em alta velocidade, o que amplia a oferta de serviços móveis.
Os dados da Anatel, divulgados há duas semanas, foram reforçados pelos dados divulgados no mesmo dia pela Organização das Nações Unidas (ONU), que informou que o País foi o quinto maior mercado de telefonia móvel em 2008. Segundo a ONU, o número de aparelhos passou de 47 milhões em 2003 para 150,6 milhões em 2008.
Mas, na avaliação de Puschel, do Yankee Group, as operadoras erram ao transformar o pré-pago em sinônimo de baixa renda. ''Isso não é verdade. Primeiro, porque o celular pode ser um instrumento de inclusão digital, sendo muitas vezes a única de acesso à web. E, em segundo lugar, o pré-pago é usado sim por pessoas que precisam mais do que falar ao telefone'', explica ele, que avalia que há um potencial enorme nesse segmento para os operadores e o setor de aplicativos.

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