O momento de roubar o mercado - João Carlos Patella
O momento de roubar o mercado
João Carlos Patella (*)
Os números das exportações brasileiras de carne bovina, neste ano, são mais do que alentadores. O setor está mostrando uma liderança que precisa, urgentemente, se traduzir em ganhos no bolso dos pecuaristas brasileiros, que proporcionam empregos para impressionantes 7,2 milhões de pessoas. Vale lembrar que, para cada emprego direto gerado no segmento, criam-se 15 indiretos e 26 outros pelo efeito-renda, pela chegada do dinheiro da mão-de-obra empregada ao mercado de consumo. Mas são dados, no entanto, que precisam bem mais do que sensibilizar as autoridades para uma nova realidade do campo.
Nem mesmo a tradicional entressafra permite que os preços pagos aos criadores gaúchos, hoje com cotações médias de R$ 1,00 o quilo, consigam mobilizá-los para investir com maior segurança no aumento dos plantéis. E são estes mesmos produtores responsáveis por saturar o mercado europeu de carne bovina, o item da pauta de exportações agropecuárias que apresentou maior crescimento nos primeiros meses pós-desvalorização do real. A pecuária de corte passou por um processo de reestruturação cujos benefícios poderão ser colhidos, a partir de agora, com a desvalorização do real. Por enquanto, é de se reconhecer que o setor foi beneficiado. Tanto que sua parte no Produto Interno Bruto (PIB) tem estimativa de crescer entre 4,5% e 5%, em 1999, conforme especialistas.
Não se pode ignorar, contudo, que do outro lado da moeda estão os frigoríficos brasileiros que não exportam, e que, portanto, não faturam em dólar. Estas plantas enfrentam dificuldades porque estão impedidas de comprar gado pagando preços de mercado físico definidos, por ironia, pela procura das indústrias exportadoras. Como só vendem para um mercado interno, que está desaquecido, não conseguem repassar estes preços mais altos para o atacado.
Nós, dirigentes, nos orgulhamos de exibir números indicando que a mudança cambial, pelo menos, trouxe um pouco de volta a competitividade aos frigoríficos exportadores. A estimativa é de em 1999 vender ao exterior 600 mil toneladas e obter uma receita de US$ 1 bilhão, o dobro do faturamento registrado em 1998. Para o ano 2000, a previsão é atingir a marca de um milhão de toneladas de carne bovina colocadas na mesa dos estrangeiros.
É este resultado que permite maior competitividade à carne produzida em campos de um país onde o consumo interno também vem aumentando. Um dos motivos sem dúvida alguma é o fato de apresentarmos um produto de carne natural que nasce em consequência da absoluta harmonia com a natureza. Bem ao gosto do exigente consumidor europeu.
Não podemos ignorar, ainda, que os criadores do Uruguai e da Argentina enfrentam dificuldades em ofertar. No caso específico dos pecuaristas uruguaios, vale citar que um dos entraves tem sido a redução nas importações de gado em pé pelos produtores do Brasil, especialmente.
Se este quadro é tão favorável à demanda desta nobre fonte de proteína vermelha, porque, afinal, os criadores não conseguem ver esta fome por carne bovina se traduzir em maiores cotações aos fornecedores de um produto tão indispensável à dieta humana? O que falta, portanto, para que o nosso produto seja finalmente valorizado? Precisamos urgentemente de um programa eficaz que permita ampliar plantéis, e, em troca, encontrar o caminho da rentabilidade.
Assim como em todos os outros segmentos da economia, necessitamos contar com mecanismos seguros que transformem nossa atividade em renda. Se somos responsáveis por colocar alimento na mesa da população, porque não dispomos de instrumentos que nos possibilitem a confiança de continuar produzindo para um comprador que sempre comparece em supermercados e açougues? A resposta é simples: como sempre, falta desatenção com os verdadeiros fornecedores de alimentos desta faminta nação.
(*) Presidente da Associação Nacional dos Criadores. Herd Book Collares é integrante do Conselho Nacional de Pecuária de Corte, e-mail [email protected]





