Os líderes do atual capitalismo de mercado global tentam nos fazer crer que a única política realista possível é a de adaptar-se às suas exigências e transformar em oportunidades as compulsões exógenas representadas pela liberalizada, privatizada e competitiva globalização, pelos mercados financeiros e pelas novas tecnologias. Vários estudos empíricos feitos nos últimos cinco anos demonstram que a era da globalização (1980-2001) trouxe substancialmente menos progresso do que o alcançado no período 1960-1980. Por isso, já é tempo de questionar a legitimidade desse argumento e de definir outra agenda.
Em menos de 25 anos, a população mundial chegará a oito bilhões de pessoas. O verdadeiro tema não é a integração/adaptação das economias locais à economia global, mas quais princípios, regras e instituições podem substituir os da economia de mercado capitalista para que esses oito bilhões de pessoas possam satisfazer suas próprias necessidades em matéria de água, moradia, nutrição, energia, saúde, ensino, transporte, comunicação, expressão artística e participação na direção de suas comunidades. Em primeiro lugar, devemos rechaçar a atual retórica dominante, pela qual a competição pela sobrevivência é um estímulo que favorece a coesão social e a solidariedade. Ao contrário, a competição é um processo em que uns ganham e outros perdem. A história nunca produziu uma sociedade que fomentasse o interesse comum por meio da guerra, inspirada na defesa e na afirmação dos interesses individuais.
Para alcançar a riqueza comum global, é necessário inventar novas formas de economia, baseadas na cooperação, justiça, solidariedade e eficácia na promoção e administração das metas e dos serviços comuns. Tomemos, por exemplo, o caso da água. Torna-se urgente deter as atuais tendências para a liberalização, desregulamentação e privatização do saneamento e fornecimento de água. A água, considerada por toda civilização como um bem comum, pode e deve converter-se no primeiro bem comum global pertencente à toda a humanidade, enquanto o acesso a ela deve ser considerado e tratado como um direito humano e social. Tais idéias, entretanto, têm poucas possibilidades de êxito. se antes não desarmarmos o poder financeiro, através de uma iniciativa coordenada em nível mundial, que una as forças sociais progressistas dos ''países desenvolvidos''.
Essa iniciativa deveria incluir as seguintes medidas: a imposição de uma taxa de 0,5% a todas as transações financeiras, que permitisse o estabelecimento de um Fundo Mundial Cidadão para financiar o fornecimento de água, educação, saúde e moradia; o fim do sigilo bancário; a eliminação dos paraísos fiscais; o restabelecimento do controle político nacional e global sobre o movimento internacional de capitais; o deslocamento do poder decisório preeminente dos bancos centrais para corpos políticos; fazer com que a valorização dos mercados financeiros seja pública e transparente, em lugar de ser domínio exclusivo de seis companhias privadas de especialistas financeiros; autorizar e promover a circulação de moedas locais dedicadas por completo a facilitar as relações econômicas locais.
Essas medidas deveriam ser instrumentadas no contexto de um Conselho Mundial para a Segurança Econômica e Financeira, que se dedicaria a definir as regras para um novo sistema financeiro mundial. O modo atual de utilizar a tecnologia, ou seja, com o propósito de reduzir os custos de produção, de melhorar a qualidade, de aumentar a variedade e a flexibilidade, cria um importante problema estrutural. Em 1971, produzir um automóvel consumia mais de 116 horas de trabalho humano, enquanto hoje são necessárias apenas 14 horas. Com o índice atual de aceleradas inovações tecnológicas, em quanto tempo teremos uma semana de trabalho de 24 horas, ou de 12? Enquanto a sociedade considerar que o trabalho pago continuará sendo por muitas gerações o principal meio de integração social, nossas economias têm a obrigação de assegurar pleno emprego a todos.
Em lugar de usar a tecnologia para aumentar a competitividade e ganhar maiores fatias nos mercados saturados de dinheiro dos países desenvolvidos, ela deveria ser empregada para atender às necessidades básicas não atendidas de milhares de milhões de pessoas, bem como as novas necessidades em matéria de sustentabilidade, segurança, controle da pirataria na informação e da biopirataria. Tudo isso nos leva para uma questão final que implica a promoção de uma sociedade global do bem-estar. Atualmente, o trabalho torna-se cada vez mais pobre, enquanto o capital se faz cada vez mais rico. Os trabalhadores estão perdendo seu poder de negociação e já não participam mais no estabelecimento das agendas. Ao trabalhador pede-se que aceite toda regulamentação possível para incrementar sua flexibilidade, sob a ameaça de ser substituído pela tecnologia.
Por outro lado, reduz-se a pressão impositiva sobre o capital, os governos que frequentemente oferecem regalias para atraí-lo e lhe é atribuída a autoridade de distribuir os recursos disponíveis. Isso não pode continuar para sempre. Antes de a economia de mercado implodir, devemos começar a redistribuir o lucro da produtividade de uma nova maneira, entre capital e trabalho e entre as gerações. Isto deve ser realizado numa escala global, já que é desse modo que a economia encontra-se estruturada atualmente.
Existe um vasto potencial de inovação político-econômica nessa área, mas o problema é a falta de uma opção política em favor da riqueza pública e dos bens comuns. Tanto no Norte quanto no Sul, estão sendo tomadas cada vez mais iniciativas para a adoção de uma agenda alternativa. Entretanto, se as mudanças forem barradas e o mundo continuar sendo instrumento dos poderes do mercado, da empresa privada e do capital, como acontece hoje em dia, teremos que denunciar o caráter mentiroso do princípio e dos preceitos sobre os quais se baseia a sociedade do conhecimento.
- RICARDO PETRELLA é catedrático na Universidade de Lovaina e conselheiro da Comissão Européia de Ciência e Política Tecnológica.

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