O milagre de Santa Catarina
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sábado, 24 de abril de 2004
Fernando Dantas<br>Agência Estado 
Joinville - Um milagre econômico aconteceu no Brasil nos últimos 10 a 12 anos, e passou quase despercebido. Mais precisamente, ele ocorreu em Santa Catarina, e teve uma natureza muito diferente dos surtos de crescimento espetacular normalmente associados à expressão ''milagre econômico''. Santa Catarina, na verdade, é um Estado exportador e foi muito prejudicada pela fase de câmbio sobrevalorizado dos anos 90, tendo crescido apenas 22,85% entre 1992 e 2002, menos que a média medíocre do Brasil naquele período, de 30,86%. O fato ''milagroso'' foi que, apesar daquele fraco desempenho, Santa Catarina assistiu a uma queda de 46% no número de pobres, e de 64% no de indigentes, o melhor desempenho de toda a federação.
A explicação do fenômeno é muito simples: Santa Catarina teve uma forte (e a maior do Brasil) melhora de distribuição de renda naquele período, com uma queda de 13% no Índice de Gini, um dos principais indicadores que medem a desigualdade. ''Isto nunca foi registrado antes no Brasil. A melhora de Santa Catarina é um movimento sólido, ano a ano. É uma grande novidade e, se o Brasil inteiro conseguisse fazer o mesmo, em dez anos a proporção de pobres na população cairia pela metade'', diz André Urani, diretor executivo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), instituto de pesquisa de políticas sociais sediado em Rio de Janeiro.
Mas é no próprio solo catarinense que o observador atento começa a juntar as primeiras pistas sobre as raízes do ''milagre''. Em lugares como a granja Associação Ovos Hable, no município de Mafra, no norte do Estado, na região conhecida como Contestado, nome da revolta camponesa do início do século.
''Eu vim de uma família muito pobre, que passou fome'', diz Dinacir Maria Hable, 40 anos, casada, dois filhos, que só estudou até a quarta série. Hoje, ela faz parte do grupo de três famílias interrelacionadas (os três irmãos Hable, casados com Dinacir, Jucélia e Marli) que toca a Associação Ovos Hable, um pequeno empreendimento rural que produz 3 mil dúzias de ovos por dia, com faturamento mensal de R$ 100 mil.
Influência européia - Há cerca de sete anos, a produção era de apenas 250 dúzias de ovos por dia, e as quatro famílias (incluindo os pais dos irmãos Hable), que arrancavam o seu sustento na pequena propriedade rural de 4,5 hectares, passavam dificuldades. Com o apoio de especialistas em desenvolvimento rural de entidades da região, as famílias, antes entregues a uma competição predatória, uniram-se em um modelo associativo sofisticado.
A história de sucesso empresarial dos Hable é uma em dezenas de milhares que se encontram nos mais diversos locais e setores da economia de Santa Catarina. No campo, em um Estado onde predominam minifúndios de até 30 hectares, com vasta a maioria entre 10 e 20, são legiões de micro, pequenos e médios produtores de suínos, frangos, ovelhas, peixes, frutas, grãos, hortaliças, ovos, leite, ervas e mel.


