O recente ‘‘namoro’’ do Mercosul com o país de Nelson Mandela preocupa a diplomacia americana. Após uma luta intensa de bastidores com a França, que se arrasta desde a década de 70, pela hegemonia na África Negra, os estrategistas da política externa americana não esperavam por isso. A África do Sul, após o ‘‘enterro’’ da política do apartheid e, mais recentemente, com a desenvoltura e habilidade demonstradas por Mandela, tornou-se mediadora obrigatória em todos os conflitos regionais. Mais do que isso, antes de Mandela, o subcontinente africano abaixo do Saara estava fora da rota da globalização. Restava-lhe apenas a alternativa de render-se à ofensiva comercial americana, mais realista e menos formal do que o assistencialismo francês.
É verdade que pela Convenção de Lomé as exportações dos países da África negra (quase todos ex-colônias de nações, hoje agrupadas na Comunidade Européia) têm acesso preferencial ao mercado comunitário. Mas tal preferência está longe de qualquer possibilidade, ainda que remota, de integração com a Europa comunitária.
Hoje, a África do Sul, devido ao fato de ter liquidado o apartheid, e ao relativo desenvolvimento do seu parque industrial, constitui-se porta de entrada obrigatória para exportações e capitais destinados a qualquer outra nação de subcontinente negro. Em outras palavras, qualquer potência industrial (sozinha ou sem parceria comunitária) que quiser fazer negócios naquela região terá de, em primeiro lugar, entender-se ou até mesmo tornar-se parceira da África do Sul.
Nessa questão, a diplomacia brasileira acertou em cheio ao identificar com clareza dois fenômenos políticos importantes ocorridos durante a década de 70: a derrocada inexorável do domínio português em Angola e Moçambique e a decadência do apartheid. A independência das ex-colônias portuguesas na região apressou o ‘‘enterro’’ do regime racista no país de Mandela. Os dividendos políticos dessa corajosa - para época - e acertada aposta brasileira poderão ser colhidas agora, duas décadas mais tarde, com a provável adesão dos sul-africanos ao Mercosul.
Mas não é isso que preocupa a diplomacia americana. A provável adesão do Chile ou do Peru ao Mercosul também está tirando o sono dos americanos. É que com um ou com outro como parceiro comunitário, brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios terão, finalmente, acesso aos portos do Pacífico. Mas e o que isso significa? O mesmo que o caminho para as Índias, contornando a costa acidental africana, significou para os portugueses nos séculos 15 e 16. Ou seja, o futuro!
No começo desta década, quase que imperceptivelmente, o volume de mercadorias (e o valor) transportadas via Oceano Pacífico ultrapassou as que são escoadas via Oceano Atlântico. E o que nós brasileiros ganhamos com isso? Rotas alternativas para escoar a soja, plantada com enorme sucesso nos cerrados do Centro-Oeste, com destino aos grandes mercados asiáticos: China, Índia, Japão, Indonésia e os ‘‘tigres’’ da região.
Por enquanto, esses mercados são abastecidos quase que exclusivamente por produtores de soja do Meio-Oeste americano, que a embarcam em seus portos da Costa Oeste. E isso lhes dá grande vantagem sobre a nossa soja, que é embarcada em Santos, Paranaguá, Vitória, dentre outros portos, e segue via Oceano Atlântico.
Por isso, apressar a criação da ALCA (Associação de Livre Comércio das Américas) com a adesão do Mercosul, já na próxima década, tornou-se a idéia fixa do presidente Bill Clinton.
A nós, brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios, cabe antes consolidar rapidamente o Mercosul. Com isso, teremos presença e peso político maiores nas inevitáveis negociações futuras. O desafio é enorme. As divergências que temos de superar - primeiro no âmbito de nossos parceiros comunitários e depois com Estados Unidos, Canadá e México - não são pequenas. Será que vale a pena tentar? A resposta nos é dada pelo maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa, quando diz: ‘‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena’’. As diferenças que hoje separam as nações e associações comunitárias do continente americano são muitas e grandes. Menores, todavia, de tudo aquilo que nos une.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).

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