''O mercado claramente precisa de limites''
Professor de Ética e Filosofia Política da UEL, Elve Cenci diz que a crise não é em si do sistema capitalista, mas do modelo de orientação neoliberal ''que relativizou o papel de intervenção'' do Estado sobre setores importantes da economia. O formato de Estado mínimo, com ampla liberdade para o mercado, seria um dos fatores que desencadearam a crise de 2008.
''Emprestou-se dinheiro além dos limites para os cidadãos norte-americanos comprarem imóveis e o Estado não tinha mecanismos de controle nem sobre as hipotecas e muito menos sobre a forma como os bancos concediam tais créditos'', ressalta.
O caso da Europa é um pouco diferente, de acordo com ele. A crise atual sucede um ''longo período de abastança produzida durante a vigência'' do Estado de Bem-Estar Social. Cenci lembra que esta forma de Estado europeu foi criada como uma maneira de o capitalismo se defender do socialismo real durante a Guerra Fria e teve o apoio dos Estados Unidos. ''Era preciso mostrar que o capitalismo também podia combater as desigualdades sociais e assim evitar a propagação do socialismo'', ressalta. Após o fim da Guerra Fria, essa necessidade acabou.
Na opinião de Elve Cenci, o capitalismo irá sobreviver como uma terceira via. Nem com o Estado mínimo neoliberal, nem na forma da socialdemocrata europeia dos anos 1980. ''Entendo que o Estado tenderá a resgatar parcialmente seu papel na economia, já que o mercado claramente precisa de limites. Mas ele nunca mais será um grande ator econômico a ponto de ter empresas como uma Embraer'', destaca o professor em referência a ex-estatal brasileira de aviação.
Na opinião do professor, para regular o mercado em um mundo globalizado, não são mais suficientes as medidas tomadas pelos Estados Nacionais. ''Antes da globalização, se um investidor promovesse atos contra a economia do seu país era punido pelo próprio país. Agora, com a ausência de barreiras claras, ele pode agir em qualquer lugar do planeta sem que possa ser responsabilizado'', argumenta.
De acordo com Cenci, são necessárias ''novas regras para um mundo que mudou''. Ele diz que essas regras deveriam ser definidas por mecanismos de governança global. ''O problema é como pensar formas de deliberação que sejam democráticas e impedir que os grandes atores econômicos globais deem as cartas'', ressalta. (N.B.)





