O limite entre a segurança e a privacidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 
A Apple surpreendeu a todos no último dia 16 quando divulgou, aos seus usuários, uma carta em que tenta esclarecer os motivos para não concordar com o pedido realizado pelo FBI órgão federal de investigação dos EUA - de criar um software que desbloqueie o aparelho da marca de um dos envolvidos no ataque terrorista em San Bernardino (Califórnia), em dezembro do ano passado, que resultou em 14 mortes. A carta é de autoria do CEO da companhia, Tim Cook. Para ele, os efeitos do pedido do FBI vão muito além da face legal e ameaçam a segurança dos usuários da marca.
Na carta, Cook conta que nos dias subsequentes ao ataque o FBI pediu à Apple sua ajuda na investigação. De acordo com o documento, a Apple cedeu todos os dados solicitados pelo órgão que estavam em seu poder e colocou engenheiros à disposição do FBI.
"Nós temos grande respeito pelos profissionais do FBI, e acreditamos que suas intenções sejam boas. Até esse ponto, nós fizemos tudo que estava tanto em nosso poder quanto dentro da lei para ajudá-los. Mas agora o governo dos EUA nos pediu algo que nós simplesmente não temos, e algo que consideramos muito perigoso para se criar. Eles nos pediram para construir um backdoor para o iPhone", diz a carta. Por backdoor, entende-se uma "porta dos fundos" por meio da qual o órgão de segurança pode ter acesso ao conteúdo do iPhone em questão.
Hoje, os smartphones da Apple são protegidos por senha. O usuário tem um número limitado de tentativas de desbloquear o aparelho, impedindo que o bloqueio seja quebrado por força bruta, ou seja, que sejam realizadas diversas tentativas utilizando todas as combinações possíveis até que a senha seja enfim descoberta. A nova versão do sistema operacional solicitada pelo FBI teria algumas camadas de segurança removidas e possibilitaria a entrada eletrônica de senha no aparelho de maneira que a criptografia fosse quebrada com a velocidade de um computador moderno, explica o CEO da Apple.
Porém, em mãos erradas, este novo sistema operacional pode representar perigo aos usuários da Apple. Além disso, não há como garantir que o uso do software será limitado apenas ao caso de San Bernardino, diz Cook. "O FBI está nos pedindo para hackear nossos próprios usuários e minar décadas de avanços em segurança que protege nossos clientes incluindo dezenas de milhões de cidadãos americanos de sofisticados hackers e cibercriminosos."
Arma nuclear
Conforme comenta Rodrigo Fragola, especialista em segurança da informação e cibernética que preside a empresa Aker Security Solutions, a criptografia nos EUA é tratada como uma "arma nuclear". "A legislação americana diz que toda empresa que produz criptografia tem que dar acesso aos dados." Para ele, são estranhos o pedido do FBI e a divulgação da carta de Tim Cook, já que os órgãos de inteligência norte-americanos possuem a capacidade tecnológica para acessar dados de usuários de sistemas e equipamentos de comunicação, inclusive com respaldo de uma legislação já bem estabelecida. O embate da Apple com o FBI traz à tona a questão da privacidade na indústria de hardware e software. Até que ponto pode-se diminuir a privacidade de usuários em nome da segurança?


