O 'Leão' está de olho na poupança
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Lu Aiko Otta<br> Agência Estado 
Brasília - A ideia de cobrar Imposto de Renda (IR) sobre as cadernetas de poupança voltou à pauta. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou que pretende enviar o projeto de lei criando a nova taxação ainda esta semana ao Congresso Nacional. Ele havia dado a informação em entrevista à imprensa, publicada no domingo. Ontem, ao chegar ao ministério, foi questionado sobre o assunto e respondeu com um lacônico ''sim''.
Hoje, a poupança não paga IR. O projeto de lei prevê que quem tem acima de R$ 50 mil em caderneta de poupança vai pagar IR sobre o saldo excedente, conforme uma fórmula que combina a renda do poupador e a taxa básica de juros da economia, a Selic. De acordo com estimativas do Ministério da Fazenda, 99% dos poupadores estarão livres das garras do leão. Porém, o 1% concentra a classe média, que responde por 40% dos depósitos.
A cobrança de IR sobre a poupança foi anunciada no dia 13 de maio passado, e na ocasião a intenção era enviar a proposta o quanto antes ao Congresso Nacional. No entanto, o projeto de lei ficou parado nas gavetas do Ministério da Fazenda, porque o problema que ele procurava solucionar - uma possível avalanche de investimentos especulativos na caderneta - não aconteceu.
No início deste ano, o governo estava diante do seguinte problema: com a queda da taxa Selic, os fundos de investimento teriam rendimentos cada vez menores. Seriam taxas de remuneração parecidas com a da poupança, com o agravante que os fundos pagam até 22,5% de IR e as cadernetas, não. A tendência seria, então, os investimentos se concentrarem na poupança.
No limite, essa situação poderia gerar dificuldade para o próprio governo financiar-se, pois os fundos são os principais compradores de títulos da dívida pública. Nesse quadro, o Banco Central poderia ver-se impedido de cortar mais os juros. Daí a ideia de taxar a poupança, tornando-a menos atraente para os grandes poupadores.
Mantega ''ressuscitou'' o projeto sem que a temida avalanche em direção à poupança tenha ocorrido. Em agosto, dado mais recente, as cadernetas de poupança registraram uma captação líquida positiva (depósitos maiores do que saques) de R$ 3,1 bilhões. No mesmo mês, os fundos que concorrem diretamente com a caderneta (DI e renda fixa) tiveram captação positiva, de R$ 3,2 bilhões.
A pressa do ministro pode ser explicada de outra forma. A Constituição diz que um imposto só pode ser criado ou aumentado se a mudança houver sido aprovada pelo Congresso no ano anterior. Assim, para poder cobrar o IR sobre a caderneta em 2010, seria necessário aprovar a mudança ainda em 2009.
Embora a perspectiva seja de recuperação da economia e, por consequência, de uma arrecadação tributária maior em 2010, a situação das contas públicas não é um ''céu de brigadeiro''. O governo estará pressionado pelo aumento de gastos com o funcionalismo, o Bolsa Família, o salário mínimo e a necessidade de acelerar investimentos no ano eleitoral. Além do mais, a meta de superávit primário da União (economia para pagamento da dívida pública) sairá dos atuais 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2,15% no ano que vem.
Não por acaso, outra medida anunciada junto com a taxação da poupança caiu no esquecimento: a redução temporária do IR cobrado sobre os fundos de investimento. O ministro da Fazenda anunciou que a taxa cairia para 15% e informou até quanto deixaria de ser arrecadado com essa ''bondade'': algo entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões em um ano.
O ''pai'' da fórmula de tributação sobre a poupança, o secretário de Reformas Econômico Fiscais, Bernard Appy, não trabalha mais para o governo. Com sua saída, o projeto de lei da poupança foi transferido ao secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, que não tinha grandes simpatias pelo desenho proposto por Appy.


