A economia brasileira vai bem, obrigado, mesmo diante da crise mundial. Esta é a conclusão do professor de Economia Internacional, Nilson Maciel de Paula, doutor pela London University College e atual professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O estudioso alerta agricultores paranaenses a estarem atentos aos humores do mercado financeiro, por ora abandonando investimentos em papéis de commodities agrícolas. Segundo ele, o mercado financeiro ditará daqui por diante o preço da produção agrícola mundial.
Entretanto, o economista é cauteloso e até otimista, apontando que o Brasil pode tirar proveito da crise, devido a valorização cambial e a queda nos preço das commodities, facilitando ainda mais a pauta de exportação agrícola do Paraná e de todo País. A crise para Maciel é localizada nos EUA, mas ele pondera que se o déficit americano aumentar e as exportações daquele país diminuírem, ''aí sim haverá uma crise global sem precedentes''.
FOLHA - Qual é o paronarama internacional econômico hoje?
Nilson Maciel de Paula - Se a gente observar a crise imobiliária americana, com este remédio forte que foi aplicado agora, com a compra destas duas agências de crédito imobiliário, esta crise não está estancada nos EUA. O mercado imobiliário tem as suas ramificações na Europa também. O Reino Unido está passando por uma situação muito parecida, por conta desta bolha especulativa no mercado imobiliário.
Qual é a situação do Brasil diante desta crise internacional?
Eu arriscaria dizer que o Brasil tem um antídoto forte para o momento. A política do Banco Central de aumento da taxa de juros está fazendo efeito. Numa avaliação mais positiva, o Brasil está se aproveitando do lado bom desta crise. O fato do preço das commodities (agrícolas e de petróleo) aumentarem, significa que o País pode faturar com isso. Agora veja, as commodities começaram a ceder (cair) nos últimos dias. Paralelamente, estamos vendo uma revalorização do dólar. Esses dois eventos econômicos reforçam o lado exportador do Brasil.
Pela reflexão que o senhor faz, esta é uma crise localizada e não global, mesmo sendo uma crise pontual o Brasil será afetado?
Sistemicamente não seremos afetados. Eu não gosto desta história de fazer grandes previsões. Não dá para entender todas as variáveis da economia mundial, até porque o mercado é muito dinâmico. É um mercado globalizado e não há como encaixar numa previsão de futuro.
Então o mundo não gira mais em torno da economia americana?
Não, eu não estou dizendo isso. Não é que a economia mundial não gire em torno da economia americana, mas o fato é que os EUA têm peso muito grande no mercado internacional. E, consequentemente, nos investimentos, porque a economia americana tem esta característica de ser a locomotiva da economia mundial. Por quê? Porque vai afetar a China, vai afetar a Europa, vai afetar a Amércia Latina, vai afetar o Brasil. A complexidade do comércio com os EUA é diversa, não só do ponto de vista dos países, mas também da pauta de exportações para os americanos.
Como o Paraná se situa diante da crise internacional?
No mercado de commodities, por exemplo, eu diria para o agricultor: você está perdendo de um lado e ganhando do outro. Da mesma forma que está havendo um ajuste para baixo nos preços das commodities agrícolas, está havendo uma compensação pela revalorização cambial. O mercado agrícola está cada vez mais financerizado, quer dizer, segue a lógica do mercado de papéis (Bolsa). E o que nós estamos vivendo agora é esta contaminação entre os diferentes mercados que compõem esta lógica financeira. O mercado de commodities reproduz a lógica financeira por causa deste movimento ''especulativo'', que é a busca do rendimento. O investidor se desfaz de ativos e desloca para outros, os preços vão refletindo este deslocamento. O Paraná e os mercados vão estar sujeitos a estes humores do mercado financeiro.
Diante desta crise, no que o agricultor paranaense deve ficar atento?
O agricultor deve observar as taxas de juros que estão e serão praticadas daqui por diante pelo Banco Central, porque isto fará um contrapeso ao mercado de câmbio. Ficar de olho na tendência do câmbio, ou seja, se você tem uma tendência forte para alta, bom para exportação. Mas, principalmente, observar o comportamento da oferta mundial de alimentos, porque financeirizado ou não, o mercado de commodities é extremamente volátil, qualquer oscilação na demanda ou na oferta haverá uma mudança substancial nos preços. Deve-se observar a oferta de outros países, a safra mundial e decisões de política agrícola porque isso compõem o cardápio que influencia a política de preços.
Mas a tendência dos preços é de baixa?
No curto prazo sim, os preços estão sendo altamente influenciado pela ação dos agentes econômicos no mercado financeiro em direção a outros ativos, que não as commodities agrícolas. Esse impacto perdura por um tempo, imponderável no momento.
O governo brasileiro está tomando providências diante da crise?
O governo brasileiro tem uma agenda própria na economia. Porque pagou a dívida externa e resolveu implementar sua política econômica. A agenda da política econômica do Fundo Monetário Internacional (FMI) é confusa. Se formos olhar a história, ora diziam para adotar o câmbio fixo ora flexibilizar o câmbio, então você não tem uma referência muito sólida sobre a política econômica do FMI. Neste sentido, penso que o Brasil está com a inflação sob controle, está dentro da meta de crescimento e as instituições financeiras estão relativamente sólidas. O governo brasileiro vem tomando todas as medidas necessárias.

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