Qual será o futuro do Plano Real após as turbulências, iniciadas com a moratória mineira e aparentemente findas com a substituição de Gustavo Franco por Francisco Lopes na presidência do Banco Central (BC) e a atual flutuação monitorada do câmbio?
Como de costume, quando são tomadas medidas drásticas, ainda que necessárias, críticos e analistas se dividem. Alguns decretaram a ‘‘morte’’ do Plano Real. Outros, como Edmar Bacha, por exemplo, viram na desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar o fortalecimento do programa de estabilização.
Não creio que o Plano Real tenha acabado, mas também não vejo qualquer indício de fortalecimento em consequência da desvalorização da moeda e do posterior regime de flutuação do câmbio. ‘‘Virtus in medio est’’ (a virtude ou a verdade está no meio termo) nos ensinou Tomás de Aquino.
A questão mais importante, no entanto, não é saber se o Plano Real continua ou não. Mas tentar prever o rumo que o governo dará a ele e seus reflexos imediatos sobre o custo de vida, o setor produtivo, o desemprego, enfim, sobre o cotidiano dos brasileiros. É claro que o Plano Real, amarrado à âncora cambial, acabou com a saída de Gustavo Franco do BC. E até que durou muito se levarmos em conta o erro de ignorar os sinais de evolução das crises asiática, nipônica e russa.
O governo não conseguiu, desde o segundo semestre de 97, quando começou o descontrole no fluxo do capital internacional, cortar o déficit nas contas públicas, nem fazer qualquer tipo de ajuste fiscal sério. Na verdade, o presidente FHC só se deu conta de que precisava mexer no câmbio em setembro passado.
Provavelmente, se não tivesse acontecido a moratória de Itamar, o governo esperaria a liberação do empréstimo do FMI para mexer no câmbio em março ou abril.
Mas o que poderá acontecer daqui para frente? Sem a âncora cambial, o Real terá de se escorar no ajuste fiscal. Ou seja, terá de realizar por meio de cortes nos gastos públicos e do aumento da arrecadação tributária o superávit primário prometido no acordo com o FMI. Feito isso, a ‘‘sangria’’ de divisas será estancada.
Se o governo conseguir amarrar o Real à âncora fiscal, abrir-se-á, imediatamente após a conclusão do ajuste e do recebimento das parcelas do empréstimo do FMI, espaço para a queda dos juros internos.
Se as negociações com o Congresso e o FMI evoluírem bem, já a partir de abril, o setor produtivo poderá contar com a baixa constante e progressiva dos juros internos. Ela será duplamente benéfica para o País, pois abre espaço para a retomada do crescimento da economia, alavancada pelo salto das exportações; e barateia o custo do giro da monumental dívida pública interna, estimada em R$ 315 bilhões.
Em conclusão, o futuro do Plano Real encontra-se mais nas mãos de atos que governantes e congressistas venham a tomar do que de eventuais caprichos dos investidores estrangeiros atraídos pela desvalorização dos papéis de nossas empresas negociados nas bolsas.
Mas e a inflação? Ela vai voltar ao dia-a-dia dos brasileiros, mas nada comparável aos níveis de antes do Plano Real. Até porque será difícil repassar a crise aos consumidores, já que, infelizmente, ainda estamos em plena recessão.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).
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