O 'Efeito Lula', segundo a ótica dos investidores
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de maio de 2002
Priscila Murphy <br>Agência Estado 
Em meio a uma intensa troca de farpas entre os políticos brasileiros e banqueiros de Wall Street, um participante-chave do mercado aceitou pôr a questão em pratos limpos. De Nova York, Drausio Giacomelli, vice-presidente da área de mercados emergentes do banco JP Morgan, que produz um índice usado como referência por todos os investidores em títulos brasileiros, esclarece em entrevista à Agência Estado o que é realmente o Efeito Lula.
Por que o Lula assusta os investidores?
Giacomelli - A partir da minha experiência com os clientes posso dizer uma série de coisas. Primeiro, os investidores têm uma memória boa. Eles percebem no PT uma chance maior de restruturação da dívida externa do Brasil. Percebem metas inflacionárias mais flexíveis, com um risco maior de inflação.
Os clientes têm dúvidas em relação à experiência administrativa do PT. Há um entendimento do mercado financeiro de que simplesmente a vontade do governo de honrar a dívida externa e de persistir no ajuste fiscal seria menor com o PT. Isso é ótica dos investidores.
Por que os bancos estão deixando de recomendar investimentos no Brasil?
Giacomelli - Em primeiro lugar, nesse período, o JP Morgan manteve a recomendação de compra de papéis brasileiros. Ela não foi mudada por causa desse barulho político. Outros bancos recomendaram uma redução do Brasil nas carteiras por causa dessas considerações políticas. É importante que as pessoas entendam que o banco está representando, está servindo ao seu cliente. Ele não está contestando, nem tomando partido de um país ou outro. O banco tem de ser neutro, antecipar movimentos de preços e avisar os investidores desses possíveis movimentos. O JP Morgan, apesar de ter detectado alguma pressão de venda, vê como o cenário mais provável ainda o de continuidade política e de política econômica, uma vitória do candidato do governo. E acha que essas quedas de preços são mais oportunidades de compra de médio e longo prazo do que de venda.
Como são feitas as recomendações?
Giacomelli - Nossa publicação é mensal e grande parte das recomendações é renovada mensalmente, apesar de existir a possibilidade de mudanças em qualquer momento. A idéia do portfólio, dessa recomendação de compra ou venda, é uma sinalização das condições estruturais do país. É um sinalizador para o investidor de como o banco vê a situação de risco e retorno de um determinado investimento. Não é o objetivo desse portfólio refletir as flutuações diárias de preço. É claro que no dia-a-dia do banco são dados alertas de possíveis fraquezas ou aumentos de preços, mas elas não necessariamente mudam o portfólio.
O JP Morgan produz o índice de mercados emergentes EMBI, que é usado como referência por todos os outros bancos...
Giacomelli - Os índices do JP Morgan são importantes para entender esse mercado. No mundo de fundos de investimento, a performance do gerente do fundo é avaliada em relação ao que se chama de benchmark, ou referência. Isso no mundo inteiro. O gerente, ou gestor do fundo, vai ser julgado pelo seu desempenho em relação à performance do mercado. Se superá-lo, é mais bem remunerado. E o que é o mercado? Pode ser o mercado de títulos americanos, o de ações, o mercado de títulos de dívida externa de países emergentes. Cada um tem sua referência. Se for um fundo de ações americanas, ele vai ser avaliado em relação ao índice Dow Jones, ou ao Nasdaq, dependendo do tipo de fundo que ele é. Há um índice que avalia os títulos sem risco de crédito, como os do Tesouro americano.
No caso dos países emergentes, as referências de performance são os índices do JP Morgan, o chamado mercado. E os índices EMBI não são diferentes de índices de preço. Só que os bens dessas cestas são títulos do governo de mercados emergentes.
Então, hoje, o Brasil, por ter uma dívida do governo externa alta em relação ao total dos países emergentes, tem a maior porcentagem desse índice. Ele participa com mais de 20% no EMBI Global. Quando os bancos recomendam a compra de papéis, estão aconselhando uma alocação maior que o índice.
Por que alguns bancos estrangeiros rebaixaram a recomendação para o Brasil recentemente?
Giacomelli - Posso dizer que os bancos não são partidários. Eles têm de ser imparciais e servir os clientes. A função do banco é orientar e alertar os clientes. E, se os clientes vêem o Lula como um risco maior, o aumento do candidato nas pesquisas é mal recebido. Nesse caso, se os clientes têm reservas em relação ao Lula, é natural que os preços caiam quando ele sobe nas pesquisas. Então, os bancos tendem a refletir a percepção dos clientes. São os clientes do fundo os responsáveis pela mudança de preço, não os bancos. Quem compra e vende os títulos são os clientes.


