O dia em que o campo parou
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terça-feira, 16 de maio de 2006
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
O dia que os agricultores poderiam ter aproveitado para trabalhar a terra e produzir riquezas foi, necessariamente, emprestado para o protesto contra a falta de políticas agrícolas que assola o País. A mobilização na região norte do Estado começou ao amanhecer e em poucos minutos a BR-369, entre Uraí e Santa Mariana, num trecho de 30 quilômetros, estava com três pontos de bloqueio.
Os tratores, máquinas agrícolas e caminhões chegavam em fila, mostrando a força e a tecnologia do campo e declarando a indignação de quem vive para e da agricultura. Em Santa Mariana (16 km a leste de Cornélio Procópio), a movimentação começou às 8 horas e reuniu perto de mil produtores de pequeno, médio e grande portes. O trevo que liga o município às cidades vizinhas de Bandeirantes e Cornélio foi tomado por cerca de 150 tratores. O trânsito no local ficou impedido até o final da tarde e era liberado a cada uma hora. Somente as ambulâncias tinham trânsito livre.
A cidade, com cerca de 12 mil habitantes, tem sua base fundamentada na agricultura e tem sofrido com a falta de políticas agrícolas que dêem sustentação para o setor. A política agrícola está arcaica, precisa de mundança, destacou o agricultor e presidente do núcleo regional da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Anselmo José Bernardelli.
Ele reforçou que a crise na agricultura vem se arrastando há três anos, resultado da atual condição política e também de perdas de safras por conta de instabilidades climáticas. Estamos com dívidas e o governo não nos dá condições de pagar. Precisamos renogociar as contas atrasadas, com uma carência de pelo menos três anos, reforçou. Engrossando o discursso de Bernardelli, outros produtores do local pontuaram que é preciso reavaliar urgentemente a taxa cambial e estabelecer um seguro agrícola que realmente ampare o agricultor.
Em solidariedade ao manifesto, todo o comércio de Santa Mariana ficou fechado durante todo o dia de ontem. A crise afetou diretamente o comércio da cidade. A cada mês o segmento vende 30% menos e deixa de receber 20% do crediário, acrescentou Bernardelli. No município, cerca de 3 mil pessoas trabalham diretamente no campo.
Em Cornélio Procópio o protesto também começou de manhã e movimentou em torno de 1,5 mil agricultores. A concetração dos integrantes da mobilização e o bloqueio da rodovia aconteceram em frente ao Parque de Exposição do município. As reivindicações dos agricultores são justas e, se o governo quiser, bem fáceis de serem atendidas, pontuou o presidente do Sindicato Rural Patronal de Cornélio, Floriano Leite Ribeiro.
Na opinião dele, causa surpresa o Governo Federal ainda não ter respondido aos apelos do setor agrícola. Ele ressaltou que o sindicato apóia o movimento dos produtores, pois tem sentido diariamente o resultado da crise: De um lado os agricultores que não têm como liquidar suas dívidas, de outro as pessoas que trabalham no campo sendo demitidas. Segundo ele, todo dia passa pelo sindicato algum pedido de demissão.
Em Cornélio, a movimentação também aconteceu pacificamente e com o apoio de parte do comércio local. A rodovia foi bloqueada durante todo o dia, mas o trânsito era liberado a cada uma hora.
Só em Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio), os produtores resolveram bloquear a rodovia durante todo o dia. Só era permitida a passagem de ambulâncias. Dezenas de ônibus, caminhões e carros ficaram presos no protesto. Essa é a forma que nós encontramos de realmente chamar a atenção do governo. A gente sabe que isso pode ser um incômodo para a população, mas não tem outro jeito, disse o agricultor Roberto Fugimori. Segundo ele, existem no município cerca de 600 agricultores. Dos 12 mil habitantes da cidade, em torno de 5 mil trabalham no campo. Se a crise persistir cerca de 50% dessas pessoas serão demitidas, anunciou Fugimori.


