Cerca de 20% dos nossos trabalhadores ganham menos de um salário mínimo que equivale a US$ 105 por mês. Outros 20% recebem entre US$ 106 e US$ 210 e 13% entre US$ 211 e US$ 315 (IBGE, Pnad, 1996). Ou seja, mais da metade dos brasileiros ganha menos de US$ 320 mensais. É muito pouco!
Mas os salários variam de região para região. Nas regiões metropolitanas a média salarial (com registro em carteira de trabalho) é de R$ 668,00 por mês, ou seja, cerca de US$ 585 - o que, com encargos sociais de 102%, se transforma num custo de US$ 1.180 - US$ 5,36 por hora.
Os salários e custos do trabalho variam também de setor para setor. Na indústria de transformação, os custos estão 10% acima da média metropolitana, ou seja, US$ 5,90 por hora (com encargos). Dentro dela, há variação entre ramos. O salário médio dos horistas da Volkswagen é de R$ 1.350 mensais o que, com encargos, gera um custo de R$ 2.727, quase US$ 2.400 - US$ 10,91 por hora.
Comparações internacionais de salários nominais são complexas. Nem sempre incluem mesmos encargos. Ademais, elas ignoram diferenças de produtividade e problemas de câmbio.
Feitas essas ressalvas, verifica-se que o trabalhador brasileiro custa menos de um quarto do alemão; cerca de 28% do belga e do holandês; e pouco mais de um terço do americano e do japonês. Desconsiderando a produtividade, o custo é baixo.
Mas, em relação a nações da Ásia e ex-Europa Oriental, o quadro é outro. O custo do trabalhador industrial brasileiro é maior do que o da Coréia e Cingapura. Os trabalhadores da Malásia, Polônia e Hungria custam pouco mais de um quarto dos brasileiros. Na Tailândia, Filipinas e Bulgária custam cerca de 12%.
As dificuldades metodológicas impedem comparações mais finas. Mas é claro que tanto nos ramos de mão-de-obra intensiva (confecções) como nos de capital intensivo (automóveis e químicos), o custo do trabalho no Brasil não está entre os mais baixos do mundo.
Um trabalhador da indústria de confecções do Brasil custa mais do dobro de um do México e três vezes mais do que um da Costa Rica - sem falar nos da China e Tailândia. No caso dos automóveis, os custos são inferiores aos dos países desenvolvidos, mas superiores aos de Cingapura, Colômbia e México. E no caso do ramo químico, o Brasil tem o segundo custo mais alto do mundo.
Apesar das limitações apontadas, os dados indicam a existência de disparidades intersetoriais importantes. Isso explica, em grande parte, a tendência mundial em direção à negociação descentralizada e ao nível das empresas - o que já começou no Brasil. No final de 1997, o setor de autopeças de São Paulo assinou um contrato no qual o ajuste da jornada e do salário passou para o nível das empresas e no caso da Volkswagen, as negociações centraram-se inteiramente nos problemas daquela organização.
Tudo indica que essas inovações negociais vão prosseguir. Já foi o tempo em que metalúrgicos, químicos e bancários eram tomados como parâmetros por outras categorias profissionais, numa espécie de efeito dominó. Hoje, trabalhadores e empresas procuram ver onde apertam seus sapatos e se empenham em negociações mais realistas e menos teatrais. Esse realismo está surpreendendo a população e parte da imprensa. Muitos não perceberam que a vala comum das leis, políticas salariais, indexação de salários e negociações setorizadas virou pré-história.
JOSÉ PASTORE é professor da FEA-USP, pesquisador da Fipe e autor do livro A Agonia do Emprego, Editora LTr, 1997
E-mail: [email protected]é Pastore
Brasileiro custa menos que um trabalhador alemão
ou japonês, mas bem mais que um malaio ou polonês

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