O conto do feijão
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sexta-feira, 24 de junho de 2016
Victor Lopes<br>Reportagem Local 
O Brasil consome aproximadamente 3,5 milhões de sacas de feijão anualmente. Entretanto, a previsão para esta safra após as chuvas em excesso e a estiagem que assolou diversas regiões do País é que a colheita atinja a marca de 2,9 milhões de sacas, ou seja, um deficit de aproximadamente 600 mil sacas para o consumo interno. Situação que atinge todos os elos da cadeia, desde o agricultor que não possui produto para comercializar até o consumidor final, que enfrenta o "boom" do aumento de preços e a falta de feijão nas gôndolas de alguns supermercados.
Um cenário que o Ministério da Agricultura (Mapa) promete atenuar por meio da redução a zero da alíquota da importação de feijão de qualquer País por 90 dias aprovada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex). A alíquota normalmente é de 10% na Tarifa Externa Comum (TEC). A mudança deverá ser publicada no Diário Oficial da União (DOU) nos próximos dias. A China já é um dos tradicionais exportadores do grão ao Brasil e poderá se beneficiar com a medida, além de EUA, Etiópia e Canadá. Paraguai e Argentina já possuem alíquota zero devido ao acordo do Mercosul. Entretanto, para os especialistas no setor que conversaram com a FOLHA, a medida não será eficiente.
O presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Lüders, salienta que tal ação se trata apenas de "marketing político", já que o feijão que pode chegar ao País é basicamente oriundo da China e de variedade preto, sendo que o grande problema no País é a demanda do carioca. "Essa liberação simplesmente diminuirá a pressão do preço do feijão argentino. É mais marketing do que um efeito econômico de fato". Para Lüders, este é um momento de toda a cadeia produtiva pressionar o governo, já que a opinião pública está sentindo a falta do produto com alta dos preços. "A cadeia está abandonada e sem preço mínimo há muito tempo. O que ninguém percebe é que estão brincando com algo de segurança nacional, já que não estão cuidando de um produto básico da população".
O engenheiro agrônomo da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) Cristopher Azevedo bate da mesma tecla de Lüders em relação a essa medida do Mapa. "Esse feijão importado não é o carioca (de cor), o mais consumido entre os brasileiros. A variedade que virá do exterior é rajado ou preto". Outro ponto importante citado por Azevedo é que a Argentina, por exemplo, sabendo do problema de estoque do País, pode encarecer seu produto enviado.
Em relação aos valores de comercialização, o especialista não acredita que essas importações possam fazer os preços da saca passarem por queda no mercado interno. Nesta semana, a saca de 60 quilos do feijão carioca foi comercializada no Estado a R$ 396,30, elevação de 213% em comparativo à média do ano passado. Já a saca do preto fechou em 203,98, alta de 97% frente ao período anterior. "Ainda é difícil dizer como o mercado reagirá, até porque ainda não temos informações mais precisas de como será essa importação".
Por fim, o engenheiro agrônomo relata que mesmo com a alta astronômica dos preços o produtor não tem muito o que comemorar. "Não está fazendo tanta diferença, porque com a forte quebra de safra, muitos não têm produto para comercializar", finaliza.
Números da quebra
O Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura (Seab) atualizou os números de quebra nas lavouras. A segunda safra, já 100% colhida, fechou em 312,3 mil toneladas, retração de 19% frente ao ano passado.


