O celular e a Internet
A Europa foi tomada de assalto pelos telefones móveis. Os gigantes do setor de tecnologia, nos EUA e no continente europeu, participam de uma louca corrida para se posicionar no mercado de telefonia celular. Da Nokia, a mais rica companhia da Europa continental, à Vodafone AirTouch, passando pela Microsoft, Cisco e Sony, as grandes se mobilizam para conquistar uma fatia deste bolo.
Por que todo esse entusiasmo? Porque o casamento de duas das mais quentes tendências tecnológicas telefones móveis e internet está sacudindo o mundo? Como negócio, esse união ainda está engatinhando. Mas as brilhantes perspectivas de crescimento irrestrito da internet e-mail e comércio eletrônico viajando nos bolsos, bolsas e porta-luvas de automóveis está intoxicando os mercados globais. As montanhas de dinheiro que estão sendo empilhadas na internet móvel estão provocando uma verdadeira comoção na indústria de telecomunicações européia, antes um mercado sonolento. O epicentro dessa revolução está no velho mundo. Este é o maior mercado e o campo de provas da transmissão móvel de dados.
Os investidores continuam a oferecer cada vez mais dinheiro pelas ações de prestadores como o executivo chefe da Vodafone, Chris Gente, que atualmente consegue levantar US$ 50 bilhões como um simples telefonema. Com a compra da Mannesmann, Gente agora está no comando de companhias telefônicas não só em todas as principais economias européias como também nos Estados Unidos. E seu crescimento provavelmente obrigará seus rivais europeus, como a Deutsche Telekom, France Telecom e outras companhias, a seguir na mesma trilha. No entanto, mesmo para titãs como Gent os riscos são grandes. A própria tecnologia que está provocando a valorização de suas ações a internet poderá prejudicá-las.
Para ficar por cima, as companhias telefônicas européias precisam se transformar em companhias de internet. É uma perspectiva preocupante, pois esse é um mercado que elas não conhecem. Na verdade, ninguém ainda realmente tem noção até onde ela irá se desenvolver. De alguma forma, porém, à medida que a internet móvel for crescendo ao longo dos próximos anos, as companhias telefônicas européias vão reinventar seu modelo de negócios. Nos últimos anos, muitas ficaram ricas vendendo caro os minutos de conversação para um continente que se apaixonou por telefonia móvel. Agora, com aumento da concorrência, as tarifas dessas chamadas telefônicas estão despencando.
Os americanos são os mestres em internet. Na onda da fuso das duas tecnologias, as companhias telefônicas e as estrelas da internet estão procurando indentificar nichos de mercado. Todas elas pretendem ficar com os melhores negócios e oportunidades para si os anúncios, por exemplo, e as comissões sobre as transações de e-business. O objetivo delas é relegar os produtos dos concorrentes aparelhos telefônicos e serviços de telefonia à condição de meras mercadorias.
E esse é precisamente o cenário do futuro que a Vodafone precisa evitar. Com quase 50 milhões de clientes, ela terá mais que o dobro de assinantes do que a AOL, maior provedora de serviços da internet no mundo. Ela está trabalhando com um elenco de companhias de tecnologia, da IBM à Nokia, para estruturar um portal móvel até o final deste ano.
Mas o AOL, que tem mais experiência na prestação de serviços de internet, também está trabalhando com a Nokia no desenvolvimento de um produto similar. Não é só a AOL que está fazendo experiencias com a aplicação dessa tática. Toda a galáxia de astros da tecnologia está se concentrando sobre o Europa. A Microsoft está formando uma associação com a British Telecom em Londres e com a Ericsson na Suécia. Em Estocolmo, a Intel está fabricando chips de memória para telefones com possibilidade de acesso à internet. A Cisco Systems está adquirindo companhias de dados móveis. A Nokia, vê uma mudança importantíssima na atitude dos amecianos.
As primeiras inovações desestabilizadores já estão pipocando: se, por um lado, os europeus são líderes em telefonia, os asiáticos são os reis na fabricação de produtos eletrônicos de consumo.
Mais concorrência poderá surgir de inovações nos próprios telefones. Empresas recém-chegadas à arena da telefonia estão investindo seus recursos em telefonia móvel. Se elas conseguirem produzir chips suficientemente inteligentes, poderão transformar os telefones em commodities como fizeram com os computadores pessoas.
Para crescer em escala, os europeus poderão se associar com as Baby Bell dos EUA, todas ansiosas em adquirir know-how em internet móvel. Para se proteger de um mercado onde aquisições da ordem de US$ 50 bilhões tornaram-se comuns, as companhias telefônicas européias provavelmente imitarão a Telefônica. Ao se desfazer de participações minoritárias em divisões dedicadas à internet, e talvez até mesmo em suas empresas de telefonia móvel, elas esperam levantar bilhões. Ao mesmo tempo, suas participações nessas companhias valorizadas contribuem para aumentar sua própria capitalização de mercado. Enquanto isso, as companhias telefônicas européias provavelmente imitarão a Telefônica. Ao se desfazer de participações minoritárias em divisões dedicadas à internet, e talvez até mesmo em suas empresas de telefonia móvel, elas esperam levantar bilhões. Ao mesmo tempo, suas participações nessas companhias valorizadas contribuem para aumentar sua própria capitalização de mercado. Enquanto isso, as companhias telefônicas, interessadas em ampliar seu leque de serviços de internet, deverão engolir companhias de tecnologia, de provedoras de serviços de internet de alcance nacional a empresas recém-criadas que desenvolvem programas para a internet móvel. E assim como a Time Warner capitulou diante da AOL, as empresas de mídias européias poderão ter que negocioar com as companhias telefônicas, para as quais US$ 1 bilhão é café pequeno.
Enquanto os investidores continuarem acreditanto que as companhias telefônicas européias têm em suas mãos as chaves de acesso à internet móvel, eles continuarão a fazer com que os preços das empresas atinjam valores estrastosféricas.
E estas movimentações na Europa e USA certamente influenciarão as decisões das empresas brasileiras envolvidas neste alucinante mercado das telecomunicações e informática.
- AMADEU COLOMBO CAVALCANTE é ex-diretor da Telepar e foi vice-presidente do Centro de Estudos e Negócios do Mercosul em Nova York





