No último mês de agosto estive participando do Conarh (Congresso Nacional de Recursos Humanos) e lá pude assistir a palestras bastante inspiradoras. Uma delas, em especial, chamou a minha atenção. Foi ministrada pelo executivo Ricardo Vescovi, presidente de uma companhia que eu mal conhecia e foi convidado para falar sobre a importância da gestão baseada em valores durante crises empresariais.
Como tenho por hábito tomar notas das apresentações que testemunho, naquela oportunidade registrei algumas frases ditas por ele que vale a pena compartilhar com você:

* "Os valores centrais da nossa empresa são a integridade, o respeito às pessoas (de dentro e fora da companhia) e a mobilização para os resultados".
* "Na crise é necessário construir confiança, e o diálogo é a principal ferramenta para isso acontecer".
* "Os gestores organizacionais precisam entender que as crises exigem o protagonismo da liderança. Isto é, você não pode correr da responsabilidade de conduzir o time".
* "Quando alguém busca transparência e abertura, a boa reputação é uma consequência. O simples eco daquilo que você faz".
* "Ninguém fala em valores no nosso mercado de atuação, mas nós levamos este assunto a sério. Podem nos visitar para verem de perto".
Ao final, fiz questão de cumprimentá-lo e dizer que foi um prazer escutar alguém que parecia realizar um excelente trabalho. Ele, dócil, agradeceu as minhas palavras e logo passou a dar atenção para inúmeras outras pessoas que também queriam lhe falar, inclusive jornalistas de diferentes veículos. Confesso que fiquei com vontade de conhecer seu trabalho de perto.
Ele voltou a receber a minha atenção – e a do mundo todo, infelizmente – a partir do dia 5 de novembro, quando 40 bilhões de litros de rejeitos de minério de ferro da empresa que dirige desceram o Rio Doce por 500km até atingirem o litoral do Espírito Santo, matando ao menos 15 pessoas e destruindo tudo o que estava no seu caminho. Sim, o Ricardo Vescovi é presidente da Samarco.
Na última quinta-feira, depois de inúmeros pedidos de entrevista rejeitados, a Folha de S. Paulo publicou as 25 perguntas que gostaria de lhe fazer e até agora não pôde. Entre as questões: "A Samarco se considera responsável pelas mortes de trabalhadores da empresa e de moradores de Bento Rodrigues, em Mariana?, "A Samarco nunca se incomodou com tanta gente morando perto de uma estrutura que depois se mostrou vulnerável?", "Por que a Samarco tem tomado medidas quase sempre a conta-gotas e apenas após a pressão da Justiça, prefeituras, órgãos ambientais e Ministério Público?" e "Por que a empresa demorou tanto para pedir desculpas pela tragédia?".
É fácil pregar a transparência e tantos outros valores socialmente aceitos; o difícil é ser transparente quando as coisas não saem conforme planejamos. Não estou aqui para arremessar pedras no Ricardo Vescovi, mas lembrar que qualquer grande executivo ou líder organizacional precisa, ao menos, praticar aquilo que defende em seus discursos.
Quem realmente leva a sério um modelo de gestão fundamentado por valores sabe que muitas vezes tem de tomar decisões que trazem prejuízos financeiros aos negócios e pedir desculpas quando erra, pois prefere fazer o que é certo em vez daquilo que é conveniente.
O momento mágico da Samarco praticar o diálogo, a simplicidade, a transparência e o protagonismo – pilares da gestão baseada em valores, segundo palavras do seu próprio presidente – é este. E daí, o que acontece? Até agora desconhecemos a causa da ruptura da barragem (uma informação elementar), ele não aceita falar com a imprensa e parece que a empresa não tem comando.
Espero que o Ricardo Vescovi também seja convidado para falar sobre o mesmo tema no congresso de 2016. E tenho até uma sugestão de título para este novo discurso: "Gestão baseada em valores: o que não fazer". Estarei na primeira fila para escutá-lo, pois como ele mesmo disse durante a palestra e registrei em outra anotação: "A vida precisa ser entendida como o processo permanente de crises e sua superação".

- Wellington Moreira, palestrante e consultor empresarial
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