Os apreciadores de um bom vinho comparam a sua produção à espera de um filho. É um longo período de gestação, de planejamento, de cuidados e de ansiedade. O trabalho é árduo e para um leigo chega a parecer à primeira vista exaustivo. Não há descanso do início da plantação das videiras ao engarrafamento da bebida. Mas como tudo o que é feito com prazer não sobrecarrega os braços do dono todo cuidado é dedicado. E, desta forma, a recompensa chega: nada mais prazeroso do que abrir o tonel e saborear o próprio e bom vinho, fabricado artesanalmente. Fruto do suor e do trabalho dedicado.
‘‘O vinho é como um filho, a gente gera mas não sabe o que vai dar. Pode sair um bom vinho ou um vinagre’’, observa o produtor Eloy Müller. Na propriedade de 12 hectares – localizada no distrito de Warta, zona norte de Londrina – a produção teve início há seis anos e divide espaço com outras frutas, como morangos e maçãs. Em apenas dois hectares estão cultivadas as uvas, distribuídas entre as variedades Rubia, Cabernet Sauvignon, Carmim, Isabel e Moscatel Bailey. A produção, artesanal, procurou variedades viníferas mais adaptadas ao clima da região e teve início depois de uma decepção com as uvas de mesa.
Müller lembra que naquela época havia muita oferta de uva no mercado, o que levou à desvalorização do preço. Foi quando decidiu investir nas viníferas, que ele considera mais fácil o manejo. De quebra conseguiu um outro benefício: agregar valor aos seus produtos através do vinho. Os cuidados com as parreiras começam cedo e a partir da adubação. A fertilidade da terra vermelha – que impressionou os ingleses colonizadores – requer fertilizantes em doses certas. O exagero dos componentes químicos pode gerar o excesso de folhas e de frutos nas parreiras, o que para a uva não chega a ser bom.
Fertilizantes nitrogenados não podem ser usados em excesso e, por isso, a adubação é feita com produtos à base de fosfatos e cálcio no pré e após o plantio. Parreiras fechadas são mais suscetíveis às doenças e, por isso, o ideal é que a planta fique bem arejada. Enquanto os ramos vão crescendo o trabalho continua. As folhas devem ser grampeadas à armação sobre a qual as plantas se apóiam. Este procedimento auxilia, mais tarde, na sustentação dos cachos. Quando os frutos estão em fase de maturação, deve ser feita a ‘‘neutralização do nitrogênio’’ com cal hidratado.
O produtor também retira o excesso de cachos que se formam. Este excesso de carga estressa a planta, que pode ficar debilitada. ‘‘Quanto menos cachos melhor. Uma parreira do Chile costuma ter, em média, 50 cachos por pé enquanto, aqui, a média é 180; tudo isso ocorre devido à fertilidade do solo’’, explica o sommelier e enófilo Alcides Carvalho, que auxilia o produtor no cultivo das uvas e no preparo do vinho. Além disso, quanto mais cachos menor o teor de açúcar – tecnicamente chamado de ‘‘grau brix’’ – dos frutos porque este componente é dividido igualmente pela planta. O vento também é prejudicial e, a maneira encontrada para driblar mais esse efeito natural, foi a plantação de grevilhas ao redor dos parreirais.
O ponto de colheita também requer cuidados. É preciso analisar freqüentemente o grau brix de cada fruto. A análise é feita com a utilização da luz natural, sem qualquer reagente químico. O detalhe é que nem todas as frutas da parreira chegam ao teor ideal ao mesmo tempo. Desta forma, as uvas mais maduras vão sendo colhidas e não podem ser acumuladas em grandes quantidades para que não ocorra o esmagamento natural dos grãos. Além disso, este trabalho tem que ser feito logo no começo da manh㠖 a partir das 6 horas, 6h30 – porque os frutos estão ainda frescos. O sol quente aliado às altas temperaturas pode antecipar a fermentação dos grãos.
Esta falta de cuidados durante a colheita pode deixar o vinho mais ácido. ‘‘A gente vai aprendendo a trabalhar com as uvas dia-a-dia. Também busco muita literatura sobre o assunto’’, comenta Eloy Müller. O cuidado exigido no trato com as uvas tem um efeito colateral: a dificuldade de encontrar mão-de-obra que, além de escassa, não é especializada.

mockup