É líquido e certo: o Plano Real fez água e foi a pique! O que impressiona e causa um imenso desconforto, principalmente entre aqueles que desde o primeiro momento alertavam para a fragilidade do Plano, acima de tudo porque sobrevalorizava o dólar, é que todos os avisos não conseguiram evitar a tragédia. Assim como o capitão do Titanic ignorou os avisos da presença de icebergs na rota do navio, também o comandante FHC, PhD e doutor honoris causa, deu de ombros e ainda cinicamente rotulou de ‘‘esquerda burra’’, ‘‘pessimistas’’ e ‘‘neobobos’’ os que tentavam alertar para o perigo. E o dono do ‘‘saco de maldades’’, Gustavo Franco, então presidente do Banco Central, apregoava que a taxa de câmbio deveria ser de dois dólares para cada real.
Assistimos ao filme cujo roteiro já nos era conhecido, pois havia a experiência desastrada do México, da Argentina, da Rússia e dos países asiáticos que também seguiram o letal receituário do FMI e acabaram comprometendo as divisas nacionais com o pagamento de juros absurdamente altos para os banqueiros especuladores e exploradores dos ditos países em desenvolvimento. Acabaram promovendo uma onda irreverssível de falências e o consequente desemprego e desespero de milhões e milhões de pessoas.
No auge das reservas internacionais de capital - algo em torno de US$ 75 bilhões -, a arrogância repulsiva dos membros da equipe econômica do governo fazia com que se portassem como heróis da Pátria, enquanto a tragédia anunciada ia, aos poucos, chegando ao seu momento crucial. Aquele dinheiro fácil, dinheiro farto, que aportava no Brasil, trazia consigo uma febre de importações supérfluas. Fomos invadidos por todo tipo de quinquilharias que o capitalismo ‘‘desenvolvido’’ dos Estados Unidos e da Europa não conseguiam ou não queriam consumir. A nossa balança comercial passou de superavitária em 94 para deficitária em quase US$ 4 bilhões no ano passado. A balança de pagamentos, por sua vez, deixa o Brasil com quase US$ 25 bilhões a menos em 1998.
Para honrar os pagamentos dos juros aos nossos algozes, venderam todo o patrimônio nacional a preço de banana: Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional, Telebrás e subsidiárias, enfim, uma infinidade de empresas estatais, algumas registrando lucros bem superiores aos das similares da iniciativa privada. E onde está o resultado obtido com o desmonte do patrimônio público? Nas mãos dos especuladores internacionais.
Uma vez, o ministro Pedro Malan tentou fazer uma brincadeira, comparando a dívida externa brasileira com um cachorro abanando o rabo. O Brasil era o cachorro e a dívida externa era o rabo. Ocorre que o rabo do cachorro cresceu tanto que agora é ele quem abana o cachorro.
Itamar Franco teve a coragem de anunciar a moratória de Minas Gerais. Olívio Dutra questiona na Justiça os valores da dívida do Rio Grande do Sul para com o governo federal. Que atitude Fernando Henrique Cardoso vai ter perante os credores? Moratória ou confronto judicial? Parece que não restam muitas outras alternativas num momento em que o real é desvalorizado em mais de 40% em relação ao dólar. E perante o País, o que FHC vai fazer? Vai conversar com a oposição, certamente, buscando idéias para tentar tirar a vaca do brejo, já que todos os palpites e conselhos dos aliados não deram resultado.
Há também a possibilidade de FHC abraçar-se a Itamar e aos governadores ‘‘rebeldes’’, no autêntico ‘‘abraço do afogado’’, que vai para o fundo agarrado a qualquer um que estiver ao seu alcance.
Fico a imaginar o estrago que FHC vai provocar. Se Itamar, lá das Minas Gerais, conseguiu abalar a economia mundial, imagina só o que o desastre que FHC pode causar. Mas, cá entre nós: o desastre só vai atingir os países em desenvolvimento e os sub-desenvolvidos, porque os capitalistas já estão com as burras abarrotadas pelo nosso dinheiro e de ouvidos devidamente tampados para não ouvir a choradeira de mais um otário que sucumbe aos encantos do dinheiro fácil da especulação.

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