Quase sete meses após a venda do Banestado para o Itaú, o saldo da privatização traz cifras que demonstram que o Estado saiu do processo mais endividado e o Itaú com a vantagem de ter levado um banco praticamente de graça. Essa é a avaliação de sindicalistas, políticos e ex-diretores do banco contrários ao leilão. Quase todo o valor pago pelo Itaú – R$ 1,65 bilhão – está sendo recuperado aos poucos com créditos tributários no valor de R$ 1,7 bilhão que o banco herdou do Banestado. Sem contar ainda R$ 415 milhões em ações da Copel que estão caucionadas na instituição financeira (o Itaú receberá o valor do governo do Estado ou terá as ações em seu poder) e ainda a carteira de créditos no valor aproximado de R$ 1 bilhão, já vendida para uma empresa privada de cobrança por valor não revelado.
Dias após ter feito o pagamento pela compra do Banestado, a diretoria do Itaú anunciava para os demais acionistas o bom negócio feito. Em entrevista a jornais de São Paulo, o diretor-presidente do banco Roberto Setúbal chegou a declarar que tinha pago ‘‘barato’’ pelo Banestado. Em Curitiba, os diretores informavam que o preço tinha sido o de mercado. O Banestado foi vendido com ágio superior a 300%.
O governo comemorou o resultado da privatização, apesar de ter sido obrigado a encaminhar todo o dinheiro diretamente para a Secretaria do Tesouro Nacional, para amortizar dívida com o governo federal. ‘‘A privatização fez parte de um acordo com o Banco Central. Não havia outra saída para o Estado’’, justifica o secretário de Governo, José Cid Campêlo Filho. Ele diz que os R$ 1,625 bilhão serviram para amortizar a dívida contraída junto ao Banco Central para sanear o Banestado, mergulhado em dívidas.
O governo federal injetou R$ 5,8 bilhões para tirar a instituição financeira do redesconto e do sistema interbancário. No auge da crise financeira, o Banestado chegou a precisar de R$ 2 bilhões para fechar as operações diárias. ‘‘Teremos de pagar essa dívida pelos próximos 30 anos’’, diz o secretário.
O Estado ficou no ‘‘vermelho’’. Tem ainda que pagar R$ 4,5 bilhões ao governo federal, valor que será corrigido. O dinheiro é enviado todos os meses aos cofres da União. Na ponta do lápis, o Banestado custou para cada um dos 9,55 milhões de paranaenses o equivalente a R$ 606,81. O dinheiro tem saído dos cofres públicos que são capitalizados com impostos pagos pela população. ‘‘No prazo de 30 anos, teremos desembolsado R$ 14 bilhões para o governo federal. É inacreditável o negócio que foi feito, pois trocamos um banco de fomento por uma dívida’’, critica o senador Osmar Dias (PSDB-PR).
O Itaú ficou com um banco saneado, praticamente pronto para ser lucrativo. Basta administrá-lo, afirma o senador. ‘‘O grupo privado levou o Banestado de graça e agora demite funcionários’’, protesta a presidente da Federação dos Bancários, Mariza Stédile. O banco recebeu ainda a garantia de manutenção das contas públicas do governo do Estado na instituição por cinco anos. As operações relacionadas com o governo do Estado representam até 70% dos negócios do Itaú. O banco administra ainda uma carteira de 560 mil contas.
O Estado, ao contrário, ficou com o ônus. Herdou créditos de difícil liquidação no valor de R$ 1,1 bilhão. São dívidas antigas praticamente irrecuperáveis, fruto de empréstimos mal concedidos. Segundo o diretor-presidente da Agência de Fomento – órgão do governo encarregada da cobrança – Antonio Carlos Araújo, serão recuperados 30% ‘‘no máximo’’. Ou seja: prejuízo certo de pelo menos R$ 700 milhões para o Estado.
O ex-presidente do Banestado, Luis Antonio Fayet, diz que hoje o governo paga um preço alto. ‘‘Se o Banestado tivesse sido privatizado em 1995, quando era um banco sadio, o governo colocaria entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões nos cofres públicos’’, afirma. Fayet diz ainda que o mais grave é que muitos escândalos de desvios de dinheiro foram ‘‘varridos para debaixo do tapete’’.

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