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Londrina

Economia

m de leitura Atualizado em 26/03/2022, 05:24

Número de londrinenses na pobreza cresce 35% em dois anos

No final de 2021, famílias com renda per capita de até R$ 178 somavam 31.281; aumento tem impacto nas políticas públicas do município

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de março de 2022

Simoni Saris - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Roberto Custódio
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 Entre 2019 e 2021, o número de famílias vivendo na pobreza e na extrema pobreza em Londrina cresceu 34,83%. No período, houve um aumento gradual da condição de vulnerabilidade econômica e social da população, com impacto direto na condução das políticas públicas. Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Assistência Social, em 2019 havia no município 23.199 inscritos no CadÚnico (Cadastro Único) com renda familiar per capita entre R$ 0,00 e R$ 178. No ano seguinte, o número de famílias enquadradas nessa faixa de renda cresceu 19,28%, passando para 27.672 e, no ano passado, com o empobrecimento de mais de oito mil famílias, chegou a 31.281, o equivalente a 5,3% da população total do município.  

A Secretaria de Assistência Social é a porta de entrada para as demandas que surgem com a expansão da pobreza e da miséria, mas o aumento do número de cidadãos vivendo nessas condições amplia a necessidade de políticas públicas não só na área da assistência social, mas também na educação, saúde, habitação e segurança. “Não é uma demanda de uma ou de dez famílias. É uma demanda estrutural do município, Estado e União que se reflete no que estamos vendo no dia a dia”, afirmou a secretária municipal de Assistência Social, Jacqueline Micali.  

A secretária observa que ao longo dos últimos anos, a situação das famílias de baixa renda evoluiu a um ponto em que não há mais despesas supérfluas a serem cortadas do orçamento. Essa parcela da sociedade passou a ter de optar pelo que é indispensável entre os itens essenciais e se viu obrigada a escolher entre pagar a água e a luz, comprar remédios ou o botijão de gás. “Tivemos um momento no Brasil onde houve aumento no consumo, mas as pessoas não mudaram de patamar social. Agora, estão deixando de consumir”, disse Micali. “É um retrato do Brasil de hoje e isso nos diz que as políticas públicas devem atuar de forma transversal e de forma contínua.” 

Advania, moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza Advania, moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza
Advania, moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza |  Foto: Roberto Custódio
 

Baixo crescimento econômico, piora no mercado de trabalho com elevação da informalidade e do desemprego, inflação em ascensão e redução do alcance das políticas sociais são alguns dos fatores que ajudam a explicar a piora do quadro econômico e social. A pandemia foi um agravante e acelerou o processo de empobrecimento da população que já vinha sendo observado de forma gradativa desde 2016 em razão das mudanças na política econômica do governo federal, avalia o economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) Sandro Silva.  

Dados da Pnad Contínua Anual, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o rendimento médio do trabalhador brasileiro em 2021 caiu 7,16% na comparação com o ano imediatamente anterior, com um valor de R$ 2.505,75. No Paraná, a queda foi ainda maior, de 7,27%, com o valor médio do salário calculado em R$ 2.760,00. A pesquisa comprova que em termos de trabalho e renda, o país retrocedeu ao patamar de 2012. Naquele ano, o rendimento médio do brasileiro havia sido calculado em R$ 2.450,25 e do paranaense, em R$ 2.731,50. “Apesar de recuperar as ocupações perdidas na pandemia, há um grande número de trabalhadores por conta própria. Diferente do que falavam sobre a reforma trabalhista, que ia gerar emprego, a medida acelerou o aumento da informalidade e da pejotização”, explicou o economista. 

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|  Foto: Roberto Custódio
 

Somados aos problemas relacionados ao mercado de trabalho, Silva aponta outros fatores que contribuíram para reduzir ainda mais a renda de uma parcela da população que antes da pandemia já se via em dificuldades para garantir a sobrevivência. A redução do alcance das políticas sociais, ano após ano, e o fim da Política de Valorização do Salário Mínimo, anunciado pelo governo federal em 2019, com impacto direto sobre as negociações salariais e renda dos trabalhadores, estão entre as razões do empobrecimento. 

O governo federal aumentou para R$ 400 o valor médio do Auxílio Brasil, criado em substituição ao Bolsa Família, mas segundo Micali, esse valor é “um mito” que não supre a necessidade da população mais carente. A secretária chamou a atenção para o corte de 60% feito pela União no orçamento da assistência social e que teve de ser suprido pelo município. “Aumentamos o orçamento municipal em quase 70% nesse período de 2019 até 2022, tentando absorver os 60% que o governo federal cortou para a assistência social. Aumentamos 60% nos serviços de média e alta complexidade e neste ano estamos aumentando o serviço de território. No meio do ano, teremos mais ações em projetos para as crianças”, reforçou Micali.

A secretária, no entanto, cobra uma atuação mais forte dos governos estadual e federal. “Muitos dos impostos recolhidos no município não ficam aqui e deveriam voltar em forma de políticas públicas. O município busca alternativas e caminha em um passo diferenciado da União, mas não dá conta sozinho. Temos que lutar por emprego e queda da inflação.”  

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|  Foto: Roberto Custódio
 

Para Silva, as falhas têm origem na política econômica adotada no país a partir de 2016.  “Com a política neoliberal, o Brasil tornou-se uma ilha. É um dos únicos países que insistem nessa política, que reduziu os gastos públicos com saúde, educação, políticas sociais e segurança com a lógica de que se controlar o orçamento público aumenta o investimento privado, mas isso não acontece”, criticou o economista. “O Estado está cada vez mais cortando orçamento e a economia não cresce.” 

Para agravar ainda mais a situação, destacou o economista do Dieese, o Brasil enfrenta uma inflação alta que elevou significativamente os preços de produtos essenciais, como alimentos, combustíveis e gás de cozinha. “O governo federal não toma nenhuma medida para conter (a escalada de preços). Um exemplo é o setor agrário que no ano passado enfrentou um embargo de carne da China e, em vez de o governo vender o produto no mercado interno, incentivou o armazenamento até resolver a situação. E o governo também vem reduzindo, ano a ano, o apoio à agricultura familiar, que é quem coloca comida na mesa da população.”  

Mais de 60% do índice de inflação no Brasil corresponde aos aumentos nos preços dos alimentos, combustíveis, gás de cozinha e tarifas públicas, como água e luz, ressaltou Silva. Tudo o que acontece em nível nacional tem reflexos nos estados e municípios e um sintoma do agravamento da pobreza, reforçou o economista, é o aumento do número de pessoas procurando por políticas públicas.  

Fogão à lenha e vontade de comer carne 

A ocupação do Aparecidinha, na zona norte de Londrina, é um recorte do agravamento da situação econômica e social da população do município mostrada pelos números da Secretaria Municipal de Assistência Social. A dona de casa Aparecida Paulino Pereira José, 83 anos, vive no local há mais de uma década, mas disse que nos últimos dois anos sentiu uma piora nas circunstâncias.  

Até um tempo atrás, contou ela, era possível comer carne de uma a duas vezes na semana e usar o fogão a gás para preparar os alimentos. Duas coisas que hoje passaram a ser luxo na família de três pessoas.  

Dona Aparecida moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza. Dona Aparecida moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza.
Dona Aparecida moradora do bairro Aparecidinha na zona norte em situação de extrema pobreza. |  Foto: Roberto Custódio
  

José vive com a renda da pensão do marido falecido, mas tem diversos problemas de saúde e só com remédios gasta R$ 360 por mês. Os dois filhos que moram com ela não têm emprego fixo. Há mais de dois meses, o gás acabou e, desde então, ela improvisou um fogão à lenha na cozinha da casa, onde prepara as refeições. Boa parte dos alimentos vem de doações porque as idas ao supermercado estão cada vez mais raras.  

“Queria poder comer uma costela que faço na panela de pressão, mas carne agora é só para rico. Faz mais de dois meses que não como um pedaço de carne. Hoje, estou cozinhando feijão e a mistura é mandioca ou abóbora, geralmente. Uma bandeja de ovo não dá para nada. Não estou passando fome, mas passo muita vontade”, disse. “Eu queria que o prefeito, o governador e o presidente pusessem um pouco de amor sobre os pobres porque a pobreza está muito difícil. Não temos de onde tirar." 

Há cerca de três anos, a cozinheira Advania da Silva Martins morava de aluguel em uma casa no jardim São Jorge. Mas a situação financeira piorou e ela se mudou com os dois filhos adolescentes para um barraco na área de ocupação pelo qual não paga aluguel. Mesmo sem essa despesa, a condição de vida da família não melhorou. Ao contrário, ela sentiu uma redução significativa no seu poder de compra.  

Os R$ 400 do Auxílio Brasil, única renda fixa de que dispõe, não cobre todas as suas necessidades. “As coisas aumentaram muito de preço. A cesta básica triplicou o valor, o gás está muito caro. Já tive de pedir socorro para o projeto (comunitário) para fazerem uma vaquinha para eu conseguir comprar um botijão”, comentou Martins.  

Ela complementa a renda trabalhando como freelancer em cozinhas, mas observa que as ofertas de trabalho estão mais escassas. “Tem semana que ainda consigo trabalhar todos os dias, mas tem semana que eu só trabalho uma vez. Ganho por dia trabalhado.” 

Com um orçamento tão limitado, a cozinheira diz ser impossível manter uma alimentação correta. No supermercado, uma compra simples para a família não sai por menos de R$ 500. “Se quiser incluir uma fruta, um leite, é esse valor. Deixei de comprar leite, pão eu não compro mais todos os dias, como eu fazia antes, e parei de comprar bolacha ou uma coisa diferente para as crianças comerem. Mistura todos os dias, não dá mais. É só arroz e feijão. Ovo, quando tem. Há muito tempo não sobra para comprar uma roupa ou calçado para mim e para os meus filhos. Reduzi as compras para o básico do básico.”(S.S.)  

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|  Foto: Roberto Custódio
 

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