Número de famílias endividadas cai para 59,3%
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 
Após três meses seguidos de queda, o número de famílias brasileiras endividadas apresentou um leve aumento de 0,1 ponto percentual de novembro para dezembro deste ano. Mas, em comparação com dezembro de 2013, este índice apresentou queda de 62,2% para 59,3%, segundo revelou a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso também cresceu na comparação mensal de 18% em novembro deste ano para 18,5% no mês seguinte, mas diminuiu em relação a dezembro de 2013, quando o índice era de 20,8%. O número de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso e que, por isso, continuariam inadimplentes apresentou o mesmo comportamento: teve uma leve alta de novembro para dezembro de 2014 passando de 5,5% para 5,8% -, mas recuou quando comparado com o percentual de dezembro de 2013, de 6,5%.
De acordo com o economista da CNC, Bruno Fernandes, este leve aumento do endividamento verificado de novembro a dezembro tem como causa o fator sazonal, pois trata-se de um período em que as famílias aumentam o consumo. Por outro lado, a queda do endividamento no período de um ano tem relação com a piora do cenário econômico brasileiro, o crédito mais caro, o patamar atingido pela inflação - mais alto que nos períodos anteriores -, e com a desaceleração do mercado de trabalho. "Tudo isso comprometeu a renda familiar e fez com que as famílias tivessem mais dificuldades de consumir", afirma Fernandes.
Ou seja, o fato de o endividamento das famílias ter diminuído de 2013 para 2014 não quer dizer que o cenário econômico está melhor, salienta o economista. "A queda se deu pela menor capacidade de o consumidor comprar. Com uma economia mais fraca, o endividamento da família diminui. É desfavorável por um lado, mas favorável por outro."
Para o início do ano que vem, o economista da CNC comenta que a tendência é que o endividamento das famílias aumente mais uma vez, em decorrência dos gastos típicos deste período do ano, como as matrículas escolares, a compra do material escolar, o IPTU e o IPVA.
Juros
Na visão do economista Sérgio Itamar, também professor do Isae/FGV, em Curitiba, a queda do endividamento das famílias está associada, principalmente, ao encarecimento dos juros de crédito. A situação piora quando se leva em consideração que as principais dívidas do brasileiro são decorrentes do cartão de crédito e do cheque especial. "Que são os juros mais caros do universo", completa Itamar. "Muita gente pisou no freio porque sabe que as taxas de juros não são amigáveis e, se não sanar logo, ficam impagáveis."
Já para Márcio Massaro, economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Campus Londrina, o menor nível de endividamento é uma mostra de que o consumidor "está aprendendo a trabalhar com uma moeda estável, que é o Real", e a se planejar melhor para prazos mais longos. "As pessoas pensam duas, três vezes antes de fazer dívidas. E a expectativa é que o ano que vem não vai ser legal. Diante do que vem acontecendo, as pessoas estão muito mais preocupadas com o que vai acontecer em longo e médio prazo."
2015
E se o brasileiro terminou 2014 menos endividado, mas "escorregou" um pouco em dezembro com as compras de fim de ano, o que fazer para entrar em 2015 com as contas mais organizadas? Para Sérgio Itamar, do Isae/FGV, virar o ano sem dívidas com cheque especial e cartão de crédito já pode ser considerado um bom começo. Em virtude das incertezas que pairam sobre a política econômica a ser adotada no ano que vem, o melhor é entrar no ano novo com o pé direito. "Estamos entrando em um ano perigoso", diz Itamar.


