O salário mínimo federal de R$ 724 que passou a valer em 2014 permitirá ao trabalhador comprar o equivalente a 2,23 cestas básicas, a maior quantidade desde 1995, segundo a Nota Técnica 132, divulgada ontem pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O reajuste dado pelo governo foi de 6,78%, composto por 5,54% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e 1,03% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2012.
Na conta, o Dieese, instituição ligada às centrais sindicais, usa o maior custo médio entre os levantamentos feitos em capitais para a cesta básica, nos últimos 12 meses. O economista da instituição no Paraná, Sandro Silva, diz que os dados servem para mostrar a importância de manter a política de valorização do salário mínimo usada pelo governo federal desde 2006, que visa diminuir o abismo socioeconômico no País. Silva conta que, até então, não havia uma regra definida e a sorte dos trabalhadores dependia de pressões econômicas ou de boa vontade em anos eleitorais.
O economista considera que houve uma recuperação significativa do poder aquisitivo por parte dos trabalhadores, apesar de o valor final ainda ser baixo. Conforme estudo anterior do Dieese, o mínimo para atender as necessidades de uma família brasileira deveria ser de R$ 2.761,58.
Ele diz que o reajuste para 2014 foi menor porque o País cresceu pouco, mas contesta a tese de que o índice acima da inflação prejudique a competitividade empresarial. "O empresariado usa o que ocorreu em curto prazo, causado pela crise de 2008. O debate tem de ser mais amplo, pegar o cenário desde 1988, porque uma pesquisa do Dieese mostra que a produtividade aumentou 80% desde então e não houve o mesmo repasse aos salários."
Nas décadas de 1980 e 1990, ele afirma que houve várias ocasiões em que o mínimo não teve reajuste nem mesmo equivalente à inflação, o que prejudicou trabalhadores e contribuiu para maiores margens de lucro dos empresários. Na última nota técnica, o Dieese apresenta a média do salário mínimo por ano desde 1983. Atualizado pela inflação de cada período, o valor há 31 anos era de
R$ 723,77, oscilou para baixo até atingir o mais baixo patamar, de R$ 318,91 em 1995, e voltou a crescer até os R$ 724 atuais.
Para o professor de economia Antônio Eduardo Nogueira, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o problema é que a conta não pode se resumir a salários e produtividade. Ele diz que o governo federal não investiu o necessário em educação e em qualificação, o que gerou perdas de ambos os lados. "Esqueceram por décadas de dar escola para a população e não vão resolver o problema com uma canetada para aumentar o salário."
Nogueira lembra que os trabalhadores não podem receber reajustes menores do que a inflação, como já ocorreu anteriormente, mas que aumentos salariais muito acima da alta de preços prejudicam os pequenos empresários, famílias com empregados domésticos e prefeituras de cidades menores, que pagam o mínimo para boa parte dos funcionários. "O País precisa de um salário que dê condições de sobrevivência ao trabalhador, mas sem inflacionar a economia."

Prefeituras
A Confederação Nacional de Municípios (CNM) divulgou ontem nota com previsão de que o reajuste do salário mínimo tenha impacto de R$ 1,79 bilhão nas folhas de pagamento das prefeituras. Ainda, informa que a política de valorização do mínimo significou R$ 18,8 bilhões nas folhas de pagamento dos servidores desde 2003. "O governo federal adotou nos últimos anos uma política de aumento de renda via aumentos reais do salário mínimo. Esta política se mostrou bastante salutar à população e ao conjunto da economia, mas causa problemas de caixa às prefeituras brasileiras", informa a CNM, por meio da nota.

Imagem ilustrativa da imagem Novo mínimo paga 2,2 cestas básicas
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