Novo estouro de preços reflete conjuntura
O momento atual de inflação dos alimentos na avaliação de especialistas pode não ser tão crítico quanto o observado há dois anos. Para o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, Antonio Evaldo Comune, a alta recente nos preços é resultado de fatores de conjuntura, não estruturais. ''Tivemos um estouro nos preços das commodities no segundo trimestre e problemas climáticos na sequência, com o açúcar na Índia e o trigo na Rússia. Parte dessas questões foi resolvida. No caso do açúcar indiano, a situação foi se regularizando e, quando a safra brasileira entrou, os preços caíram'', afirmou.
A economista Ignez Vidigal Lopes, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, também acredita que os motivos para a atual inflação dos alimentos são pontuais e que não houve uma repetição do que ocorreu em 2008, ''quando tivemos um grande aumento de demanda no mundo inteiro. Ela vinha crescendo mais do que a oferta conseguia acompanhar'' e isso provocou uma redução nos estoques, acrescentou.
De acordo com dados da FAO, os estoques globais de cereais em 2006 estavam em 471,4 milhões de toneladas, sendo capazes de suprir 22,9% do consumo daquele período. Dois anos depois, essa taxa caiu para 19,5%. Em 2010, a estimativa é de que ela suba para 24,5%. ''Em 2007 e 2008, todos os países estavam crescendo num ritmo muito elevado, provocando um aumento na demanda'', explicou Lopes. O mercado respondeu ampliando a produção, mas a crise financeira diminuiu os níveis de consumo e uma parcela maior dos cereais foi para os estoques.
Diante disso, é menos provável que problemas com as safras de trigo, por exemplo, afetem os preços, mas eles ainda podem permanecer altos mesmo que não haja escassez de comida. A fuga dos grandes fundos do mercado financeiro para o de commodities, segundo Lopes, força a alta nos preços, sem que tenha havido mudanças na estrutura da oferta e demanda.
Em 2010, a FAO estima que os países gastarão mais de US$ 1 trilhão apenas com a importação de alimentos. No caso de nações pobres, isso representa um crescimento de 11% com esse tipo de despesa em comparação ao ano passado.(G.N./AE)





