Novo curso da UEL mira ‘boom’ de terras raras e de agrominerais
Aprovada pelos conselhos da universidade, escola superior de Geologia depende de aval do governo do Estado para ser oferecido ainda esta década
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sábado, 11 de outubro de 2025
Aprovada pelos conselhos da universidade, escola superior de Geologia depende de aval do governo do Estado para ser oferecido ainda esta década

A Universidade Estadual de Londrina está próxima de ter um ativo singular entre as instituições públicas de ensino superior do interior do Estado com a aprovação do curso de bacharelado em geologia, a ciência que estuda a composição, a estrutura e a evolução do planeta. Os cinco anos da graduação em período integral são dedicados aos estudos da formação das rochas, dos minerais e dos recursos naturais, uma área que tem chamado a atenção de estudantes de todo o país por causa da demanda vertiginosa da transição energética e suas necessidades de renovação das matrizes minerais. Com a confirmação da notícia, que depende apenas da contratação de um grupo pequeno de professores e técnicos, a escola de Londrina será a pioneira do interior e a primeira implantada no Estado em mais de cinco décadas - a Universidade Federal do Paraná em Curitiba é a única opção dos interessados desde 1973.
Há esperança que a primeira turma de calouros já esteja circulando pelo campus em 2027, mas o passo estratégico ainda depende de uma deliberação da Seti (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), um trâmite que ainda pode se arrastar por alguns meses até o anúncio oficial. Aprovado por dois conselhos da UEL, o Cepe (Ensino, Pesquisa e Extensão) e CA (Administração) desde julho, o novo curso estará vinculado ao Departamento de Geologia e Geomática do Centro de Ciências Exatas. “O curso fortalecerá nosso compromisso com a formação de excelência e o desenvolvimento sustentável”, declarou a reitora Marta Favaro à Agência Estadual de Notícias logo após a aprovação, em julho
A argumentação do projeto pedagógico-político é estruturada de acordo com as transformações econômicas exigidas pelas mudanças climáticas e pela degradação ambiental, com menções às pesquisas para a localização de minerais estratégicos usados na fabricação de baterias de carros elétricos, de turbinas eólicas e de placas de células fotovoltaicas, a exploração da energia geotérmica e do gás natural no fundo do mar, além da gestão das águas subterrâneas.

“Para você desenvolver dois setores muito estratégicos para o país, a questão das terras raras e dos agrominerais, a formação de geólogos é muito importante. E temos uma vasta região descoberta, sem bacharelado em geologia, que vai do oeste de Santa Catarina, oeste de São Paulo e pega todo o Mato Grosso do Sul. O curso em Londrina atenderia os interessados nesta formação em todo este território”, afirma o professor José Paulo Pinese, um pesquisador com 40 anos de vida acadêmica e um dos grandes “padrinhos” da ideia do projeto nascido nos corredores do curso de geografia.
LED, TELAS, MÍSSEIS E BATERIAS DE CARRO
De acordo com explicação do SGB (Serviço Geológico do Brasil), 17 elementos químicos com propriedades similares encontradas em alguns minerais. São Elementos Terras Raras (ETR), os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio, encontrados como produtos secundários em depósitos de nióbio e fosfato. Dos mais de 200 minerais que contém ETR, apenas a bastnasita, a monazita, o xenotímio e a loparita são explorados atualmente.
Pequenas porções de ETRs são imprescindíveis na fabricação de ícones da vida moderna como lâmpadas LED, smartphones, notebooks, TVs de alta resolução, além de abastecer a indústria bélica na produção de bombas, drones e mísseis. As baterias dos carros elétricos e as turbinas de geradores de energia eólica também são produtos que vão ajudar a ampliar exponencialmente a demanda por matéria-prima nas próximas décadas.
A exploração das terras raras é um dos assuntos do momento e vem influenciando até a geopolítica internacional. Em abril, o governo dos Estados Unidos assinou um acordo para a criação de um fundo de investimento conjunto para a busca de minerais estratégicos no território ucraniano como forma de compensação aos gastos norte-americanos no conflito com a Rússia.

A preocupação estadunidense é com a concentração de poder neste setor pela China. De acordo com dados da Agência Internacional de Energia, o gigante asiático extrai mais de 60% das terras raras e monopoliza seu beneficiamento, com 92% do volume global, o que significa controle quase total do abastecimento destes minerais.
ANTA GORDA
O Brasil por sua vez detém o segundo maior volume destes recursos, com 21 milhões de toneladas, quase um quarto da fatia mundial, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos. Mas ainda engatinha na produção, atualmente insignificante. Dois projetos promissores, no entanto, Projeto Iporá (área central de Goiás) e o Projeto Alto do Paranaíba (noroeste de Minas Gerais), de capital norte-americano, podem mudar este cenário em poucos anos.
O conhecimento geológico é considerado fundamental para que novas jazidas sejam descobertas.
Recente estudo do SGB, apontou que 12 estados brasileiros têm potencial de presença de ETR em seu território, um deles no Paraná, mais precisamente na borda norte da Região Metropolitana de Curitiba. “Os estudos mostram que algumas rochas magmáticas alcalinas numa área geológica apelidada de Anta Gorda podem conter jazidas de ETR. É um quadrilátero que abrange os municípios de Doutor Ulysses, Adrianópolis, Cerro Azul e Tunas do Paraná”, explica o professor Pinese.
“Os estudos neste Primeiro Planalto do Estado vão continuar e vamos precisar mais geólogos para acelerar o processo”, explica.
PÓ DE BASALTO
O curso de geologia da UEL também poderá ser importante para as regiões agrícolas enfrentarem um dos seus maiores gargalos da atualidade, o alto custo dos fertilizantes e sua escassez de alternativas no mercado, aprofundada nesta década pela invasão russa da Ucrânia.
Grande consumidor de fertilizantes e dependente da importação, o agronegócio brasileiro observa o avanço na tecnologia de remineralização do solo com pó de basalto, outra frente que também exige conhecimento avançado em geologia. A aplicação deste mineral nas terras agricultáveis reduz o uso de fertilizantes sintéticos e fortalece as plantas contra pragas e doenças, o que impacta positivamente a necessidade do uso de defensivos nas plantas.

Os especialistas explicam que a substituição de uma prática pela outra não só barateia a produção, sem perda de produtividade, como também ajuda o setor a descarbonizar a cadeia por três motivos. O primeiro é que a redução da demanda por fertilizante sintético colabora para menos emissões da indústria. O segundo é que o método sequestra o carbono da atmosfera em dias de chuva na lavoura, acumulando e mantendo o “vilão” no solo. O terceiro é que a remineralização é indicada para recuperar áreas degradadas e abandonadas, combatendo indiretamente o desmatamento. “O Paraná com o seu desenvolvimento agrícola com tecnologia de ponta pode liderar este processo no País. Se isso acontecer, o interior do Estado também será um núcleo muito importante de mercado de trabalho para os geólogos e a UEL será estratégica neste movimento”, esclarece o professor Pinese.
PRÓXIMOS PASSOS
E, afinal, o que falta para o anúncio oficial do curso de geologia da UEL? De acordo com a apuração da reportagem da FOLHA, todo o processo de criação do curso foi enviado à Seti no dia 3 de junho. Uma semana depois, a papelada retornou para a UEL para um trabalho de “manifestação e instrução”. Neste período, o processo passou pelo Centro de Ciências Exatas e, no início deste mês, foi remetido ao Gabinete da Reitoria. A previsão é que ainda nesta quinzena o ajuste na documentação deve ser concluído e enviado ao governo do Estado.
Pinese lembra que a UEL se ampara na Lei Geral das Universidades, que garante às instituições o direito de receber recursos no caso da aprovação de um novo curso. Há consenso no campus que os custos de implantação são baixos porque não envolvem obras civis porque as salas de aula e o laboratório de pesquisa já estão prontos no novo bloco do CCE. Os investimentos se concentrariam na contratação de oito professores, um grupo suficiente para atender os primeiros anos letivos da graduação e outros três técnicos de apoio às atividades acadêmicas e administrativas, além da compra de microscópios de última geração.
ARTICULAÇÃO POLÍTICA
Professor do curso de Engenharia Civil da UEL nos últimos 37 anos, Carlos José Marques da Costa Branco, ex-presidente e atual conselheiro do Ceal (Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina), destacou que a sociedade civil organizada está empenhada na causa e que a criação do curso tem o aval de todas as entidades protagonistas da cidade. Ele lembrou que o Núcleo de Desenvolvimento Empresarial - um coletivo de líderes que se reúne semanalmente na Associação Comercial e Industrial de Londrina para debater pautas de interesse público - já enviou carta ao secretário Aldo Nelson Bona, titular da Seti, oficializando o pleito, o mesmo gesto feito antes isoladamente pela Acil, Sinduscon, Sociedade Rural e o próprio Ceal. “O curso forma pesquisadores que serão importantes para uma exploração sustentável dos recursos e para o nosso desenvolvimento industrial e agropecuário”, defende Costa Branco.
O curso em Londrina também tem o apoio do núcleo paranaense da Sociedade Brasileira de Geologia, da Federação Brasileira de Geólogos, da Associação Profissional dos Geólogos do Paraná, da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental e da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas.
A bancada de deputados estaduais da cidade também está mobilizada. Tercílio Turini, funcionário de carreira da universidade, disse que já conversou com o primeiro escalão do governo estadual sobre o assunto e que “está acompanhando a evolução do processo” e que já recebeu professores do departamento para discutir a estruturação do curso. “O Paraná e o Brasil têm riquezas naturais que podem ser trabalhadas segundo parâmetros de sustentabilidade e isso exige profissionais qualificados, com conhecimentos para pesquisa, atividades econômicas e preservação do meio ambiente”, comentou.





