As mais de 7 mil transações envolvendo debêntures em dezembro do ano passado no Brasil movimentaram R$ 1,7 bilhão
As mais de 7 mil transações envolvendo debêntures em dezembro do ano passado no Brasil movimentaram R$ 1,7 bilhão | Foto: Shutterstock



Com as torneiras do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) fechadas no atual governo, as empresas têm cada vez mais necessidade de se financiarem com recursos privados. Este é um dos fatores que fazem os analistas acreditarem que as debêntures, principalmente as incentivadas, ganharão espaço no mercado financeiro.

O número de negócios com debêntures realizados no Brasil é crescente, ultrapassando 7 mil transações em dezembro do ano passado e janeiro deste ano. O volume negociado varia muito. Os 7.601 negócios feitos em dezembro movimentaram R$ 1,7 bilhão. Já as 7.522 de janeiro renderam apenas R$ 841 milhões.

Debênture é um título de dívida emitido por companhias. Quando uma pessoa compra um ativo desses, na prática, ela está emprestando dinheiro para a empresa realizar seus projetos. As debêntures incentivadas só podem ser emitidas para obras de infraestrutura e sobre o rendimento delas não incide imposto de renda.

Segundo Gabriel Vansolini Soldado, sócio da Fort Investimentos e representante da XP Investimentos em Londrina, a forma mais comum de se remunerar uma debênture é por meio da inflação oficial mais uma taxa pré-fixada. "O investidor pode encontrar algumas debêntures com remuneração indexada à taxa CDI, mas não é o mais comum."

Há debêntures que pagam o investidor com juros semestrais e devolvem o valor principal no vencimento. "Mas isso varia muito. Tem título que só paga o rendimento e o valor principal no vencimento", explica.

Ele ressalta que a rentabilidade desses papéis pode variar muito. "É possível encontrar uma debênture incentivada da Vale pagando IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) mais 4,65% ao ano, isento de imposto de renda, com vencimento em 2022 e outra debênture da Concessionária Supervia com remuneração de IPCA mais 7% vencendo em 2028", exemplifica. Para decidir entre elas, o investidor deve levar em conta seus objetivos e o risco de crédito da empresa que emitiu aquela dívida.

Imagem ilustrativa da imagem Novo cenário econômico faz crescer mercado de debêntures



Garantias
Soldado explica que, diferentemente de títulos de emissão bancária - como CDB, LCI e LCA -, as debêntures não contam com garantia de até R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Créditos. "Nas debêntures, todas as garantias são oferecidas pela empresa que as emitiu." Não sendo uma alternativa conservadora, ele diz alocar no máximo 20% das carteiras dos clientes neste produto.

Para o representante da XP, o investidor quando compra uma debênture deve estar disposto a carregá-la até o vencimento. "Elas não têm resgate e seu mercado secundário (quando o papel é comercializado entre dois investidores) ainda está em desenvolvimento no Brasil", declara.
Mas ele mesmo afirma não gostar de comprar o título no mercado primário, ou seja, no ato da emissão da dívida pela empresa. "Prefiro adquirir no mercado secundário." Normalmente, ele compra os papeis dos fundos de investimentos para vender aos clientes.

Soldado ressalta que é preciso ficar esperto quando um papel promete remuneração muito alta. Isso porque o risco da empresa está embutido na rentabilidade. Uma companhia que não vai bem das pernas precisa pagar mais juros para conseguir recursos. "Você pode encontrar uma debênture da Saneatins (empresa do grupo Odebrecht) que paga inflação mais 10% porque tem o risco Odebrecht embutido."

O valor dos títulos, segundo ele, varia de R$ 1 mil a R$ 10 mil.

Gerente vê liquidez no mercado secundário
Gerente de renda fixa da Guide Investimentos, de São Paulo, Bruno Carvalho discorda de Gabriel Soldado quanto à liquidez das debêntures incentivadas. "Esse mercado tornou-se bastante líquido", afirma. Ele ressalta, no entanto, que se o risco do papel for muito grande, o investidor terá dificuldade de passá-lo adiante antes do vencimento por um valor razoável. "É lógico que, se você tem uma debênture exótica, como a de empresas envolvidas na Lava Jato, não vai ser fácil de vender."

Carvalho concorda que a emissão de debêntures no País vai aumentar. "O novo cenário econômico, com juros mais baixos, faz os investidores procurarem produtos mais rentáveis." E a isenção de impostos, nos títulos incentivados, são um grande atrativo. "Para as empresas também é bom porque é uma dívida mais barata que a dos bancos."

Neste ano, de acordo com ele, o mercado das debêntures está aquecido, com algumas emissões importantes, entre elas as da Transmissora Sul Litorânea de Energia, da Algar, e da Comgas.
Segundo o gerente, vale a pena para o investidor participar das emissões. "As chances de comprar uma debênture com preço melhor na hora da emissão é maior que no mercado secundário, já que, na emissão, não se cobram taxas", esclarece. A compra é sempre feita por meio das corretoras.

De acordo com Carvalho, é bem "factível" o investidor encontrar debêntures incentivadas que pagam inflação mais 6%. "Mas não se deve comprar pensando em vendê-las em menos de dois anos. Se a pessoa quer investir num prazo inferior a esse deve procurar outros instrumentos mais proveitosos", orienta. Para o gerente, as debêntures normais - aquelas cuja rentabilidade sofre incidência de imposto de renda - também devem crescer, mas num ritmo bem menor. (N.B.)

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