São Paulo - Encerrada a primeira fase de negociação entre Brasil e Paraguai sobre Itaipu, especialistas apontam que a autorização para a estatal paraguaia Administración Nacional de Electricidad (Ande) vender a cota paraguaia aos clientes livres brasileiros (as grandes indústrias) pode gerar desequilíbrios no mercado cativo (das distribuidoras), que responde por 75% do consumo nacional. ''A dúvida que surge é como a energia de Itaipu será substituída no portfólio das distribuidoras'', afirma o analista do setor elétrico do Santander, Marcio Prado.
Atualmente, a energia de Itaipu é comprada pelas concessionárias do Sul e Sudeste. Em alguns casos, chega a representar 25% da oferta, caso da AES Eletropaulo (SP). Considerando o mercado total, a migração da energia do ambiente livre para o cativo não afeta o balanço entre oferta e demanda, porque o volume não consumido pelo Paraguai continuará a ser negociado no Brasil.
Nesse contexto, as concessões do governo brasileiro garantiram a segurança energética do País, porque a principal demanda paraguaia, a de negociar sua fatia de Itaipu para outros países, não obteve sucesso. Porém, os especialistas sugerem que o ritmo da transição da oferta deve ser gradual para não provocar desequilíbrios entre os mercados. ''É preciso cuidado para não inundar de energia o mercado livre e nem provocar um buraco no mercado cativo'', destaca o ex-diretor da Cesp e consultor da Andrade & Canellas, Silvio Areco.
Hoje, Itaipu representa quase 20% do consumo total de energia do País, e a oferta da usina está na base da modicidade tarifária do sistema brasileiro. Com a migração da energia do cativo para os clientes livres, o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nivalde de Castro, argumenta que dificilmente o governo conseguirá adicionar outra oferta barata no portfólio das distribuidoras.
Para que as distribuidoras tenham condições de contratar a energia de hidrelétricas, o professor sugere que a descontratação da cota paraguaia de Itaipu ocorra daqui a cinco anos. Só que o próprio acordo firmado no último sábado prevê que a Ande ''possa gradualmente, o mais breve possível, comercializar, no mercado brasileiro, a energia de Itaipu correspondente aos direitos de aquisição do Paraguai''.
Nos próximos 60 dias, um grupo de trabalho formado por membros dos dois países discutirão as propostas para o ingresso da Ande no setor elétrico brasileiro. Ao próprio Paraguai interessa que essa transição seja suave. O resultado das discussões será apresentado aos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Paraguai, Fernando Lugo, em 90 dias. Os consumidores livres, por sua vez, já demonstram interesse na oferta de Itaipu.
Apesar da pressa paraguaia em elevar sua receita de Itaipu, o aumento pela remuneração e a permissão para vender sua cota no mercado livre não devem ocorrer no curto prazo. A primeira medida precisa de aprovação dos congressos do Brasil e do Paraguai.

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