France PresseDinheiro novoRepresentantes da União Européia mostram em Luxemburgo uma moeda gigante de 1 euro: onze países formam novo bloco econômicoA moeda comum européia - o euro - está sendo oficialmente lançada em Bruxelas neste 1º de maio e neste sábado, 2 de maio. Este fim de semana marcará portanto o lançamento do míssil que deverá colocar em órbita a Europa unida.
Este momento representa o coroamento de meio século de esforços. Primeiro esboço: a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (ECSC - que compreendia a Alemanha, França e Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Daí por diante, o edifício se ergueu e foi se ampliando com o tempo. Não vamos citar todas as etapas. A última, em 1992, foi a do ‘‘mercado único’’, apresentado então como um ‘‘Big Bang’’ ensurdecedor.
Mas esse Big Bang foi na realidade um petardo molhado, porque em 1992 a Europa estava em plena crise e o ‘‘mercado único’’ não podia concretizar-se por não possuir uma moeda única. O verdadeiro Big Bang portanto tem lugar neste início de maio, que verá o nascimento do mercado único numa Europa finalmente liberta da crise.
Em Bruxelas será estabelecida a lista dos onze países admitidos ao euro: Áustria, Bélgica, Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda e Portugal. Um país foi rebaixado porque seus desempenhos econômicos são fracos. Três países não quiseram embarcar no trem: Inglaterra, Dinamarca e Suécia.
France PresseO símbolo do euro, que tem a missão de colocar a Europa como 3ª força mundial,
ao lado de EUA e Japão
A mesma reunião de Bruxelas deverá designar os diretores do futuro Banco Central Europeu (BCE) que irá dirigir o euro. Neste ponto, trava-se uma batalha - de triste augúrio - entre o candidato da França, Jean Claude Trichet, e o holandês Wim Duisenberg, apoiado pela Alemanha.
As próximas etapas institucionais são estas: a 1º de janeiro de 1999, o atual Instituto Monetário Europeu desaparecerá para dar lugar ao BCE que regerá a política monetária do euro. No dia 1º de janeiro de 2002, o euro começará a substituir as unidades monetárias nacionais. No dia 1º julho de 2002, as moedas nacionais serão definitivamente extintas.
Concretamente, em termos de vida cotidiana, o que irá acontecer? As pessoas comuns terão ainda um pouco de tempo para treinar a ginástica do euro. A mudança das operações interbancárias e dos ativos dos Estados na Europa, no dia 1º de janeiro de 1999, não transtornará a vida dos particulares. Em compensação, a partir de 4 de janeiro de 1999, com a reabertura da Bolsa, aparecerão as primeiras mudanças, mas as cotações serão expressas na moeda comum (o euro) e não mais nas moedas nacionais.
A partir de então, a máquina será acionada: de 1999 em diante, será possível calcular seus impostos quer em francos, quer em euros. Para os assalariados, a folha de pagamentos continuará redigida em moedas nacionais, mas as empresas inscreverão pouco a pouco o valor equivalente em euros. Valerá o mesmo processo para os extratos bancários. A partir de 1999, se poderá exigir talões de cheques expressos em euros.
E será preciso esperar o fim do período de transição, ou seja 2002, para pagar sua refeição ou seu maço de cigarros com moedas de euro.
A começar de agora, algumas redes de grandes lojas praticam a dupla fixação de preços, embora seja ainda teórica, a fim de habituar os clientes a estas conversões.
Uma pequena cidade provinciana, Sarlat, na Dordogne, declarou-se a ‘‘Ville Euro’’ e está incentivando seus comerciantes a afixar seus preços em euros a partir de hoje. Isso parece um divertimento, um jogo e consegue grande sucesso. Ninguém duvida entretanto que a conversão das moedas em euros dará algumas dores de cabeça. Sobretudo às pessoas idosas. Na França, o general de Gaulle mudou o valor do franco: criou o ‘‘nouveau franc’’ (franco novo) que valia 100 francos antigos. Isso aconteceu em 1958. Ora, ainda hoje, quarenta anos depois, muita gente continua a contar o dinheiro em ‘‘francos velhos’’. Este hábito foi confirmado por uma pesquisa: entre as pessoas idosas, 90% esperam complicações extremas. Ao contrário, entre os jovens, 60% estão convencidos de que tudo vai correr muito bem.
Além destes efeitos cotidianos, a verdadeira questão é a de avaliar as vantagens que as economias podem esperar disso. A ambição é clara: constituir a Europa como um terceiro bloco, capaz de fazer frente aos dois outros grandes blocos, o Japão e os Estados Unidos. No papel, a prova é viável. A população dos Estados Unidos é de 271 milhões de habitantes e o PIB é de 165.880 francos. A Europa conta com 291 milhões de habitantes, cujo PIB é de 141.841 francos. O Japão tem 125 milhões de habitantes e um PIB per capita de 220,080 francos. O crescimento da Europa será de 3% em 1998. O dos Estados Unidos de 2,7% e o do Japão deverá ser negativo, -0,3%. Outro elemento significativo: Os Estados Unidos detêm 19,6% do intercâmbio comercial mundial. A Europa, 20,9%.
Mas, somar as rendas, o intercâmbio comercial, os produtos, não quer dizer muita coisa: o essencial é saber se o euro irá fazer da Europa uma verdadeira unidade econômica, tão coerente, tão sólida e integrada como seus dois rivais. Esta é uma das incertezas: a Europa será um imenso mercado de ‘‘livre intercâmbio’’ ou, ao contrário, um ‘‘mercado único’’. A União Européia não tem absolutamente a ambição de ser uma espécie de NAFTA (zona de livre comércio que une Estados Unidos, Canadá e México). A União Européia toma antes por modelo o mercado norte-americano.
Outra interrogação é a maneira como os industriais, os comerciantes, os consumidores reagirão ao surgimento desta zona econômica transparente e sem fronteiras que será a zona do euro. Pode-se prever distorções, feridos, estropiados. Atualmente, as diferenças de preços de mercadorias de um país a outro são muito fortes, muito mais fortes, por exemplo, do que dentro do mercado americano. Portanto, os consumidores recorrerão à arbitragem comercial, ou seja, dirigir-se-ão às zonas mais baratas e isso terá o efeito de destruir alguns segmentos economicamente menos sadios em alguns países.
Há outra coisa ainda mais inquietante: O mercado único acelerará os ‘‘deslocamentos’’ da produção para as regiões que apresentarem as melhores relações entre custo e eficiência. Com toda a certeza, o mapa das grandes áreas industriais, como a Alemanha, a França ou a Inglaterra, será brutalmente retificado, com os dramas sociais que se pode imaginar. A curto prazo, portanto, a União Européia atravessará uma zona de turbulências. O desemprego arderá em algumas bacias. Em compensação, a longo prazo, a produtividade, a flexibilidade da mão-de-obra, a eficiência econômica, a modernidade sairão ganhando.
Será inútil evitar que a instauração do euro abale, desde os alicerces, o enorme edificio que é a Europa - a Europa constituida por estes 15 Estados, lentamente caldeada no decurso de 2000 anos de história, de 2000 anos de crises, de 2000 anos de heroismo e de guerras.
Sem dúvida, o Estado não é negado pelo euro. As prerrogativas dos executivos de Lisboa ou de Bonn, dos Parlamentos de Londres ou de Atenas não são ameaçados pelo euro. Na prática, entretanto, quem poderia duvidar que o euro, simplesmente por sua existência, mordiscará e encolherá as soberanias dos Estados?
Em tese, a transferência de soberania afetará apenas a moeda. Nada mais. Mas, na realidade, cada país irá perder uma parte de sua política orçamentária. Não porque o futuro BCE supervisionará os orçamentos, mas porque este banco europeu velará para que os critérios de equilíbrio sejam respeitados por todos os membros do euro. Portanto, o orçamento estará sob vigilância. Por exemplo, não se poderá mais fazer um ‘‘relançamento’’ para cobrir um déficit orçamentário, como outrora se fazia, etc...
A política salarial estará também sob controle indireto. O mesmo acontecerá com as políticas fiscais: com certeza, cada capital fixará seus impostos, mas suponhamos que um país, sob pretexto de justiça social, decida gravar impostos mais pesados sobre as indústrias ou sobre as fortunas: imediatamente, se assistirá a uma evasão das grandes fortunas e também das grandes indústrias, à procura de um país menos severo.
Ora, estas análises são raras ou inteiramente inócuas nos milhares de artigos suscitados pelo nascimento do euro. Como se o ‘‘inconsciente’’ de cada país europeu se abstivesse de enfrentar a realidade e de confessar que o euro, sob suas aparências bem comportadas e tranquilas, é na realidade uma formidável máquina de guerra contra os Estados. Será uma coisa boa? Uma coisa passível de arrependimento? Não cabe a mim decidir isso. Em compensação, considero saudável, honesto e corajoso reconhecer que o euro irá reduzir muito seriamente a soberania de cada Estado europeu.

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