O quadro de mudanças radicais no perfil econômico do Estado do Paraná reflete o saldo líquido de alguns movimentos inter-regionais de rearranjo dos novos investimentos produtivos no País, decorrentes da estabilidade monetária, do processo de abertura da economia, da desconcentração industrial e do papel indutos de alguns incentivos fiscais. Na verdade, da década de 90, três fluxos macrorregionais de inversões chamam a atenção.
O primeiro deles corresponde à continuidade da migração de capitais agroindustriais do Sul na direção das regiões Centro-Oeste e Nordeste, impulsionada tanto pelo esgotamento das bases de crescimento nos pontos de origem quanto pelo baixo custo da mão-de-obra e pelos incentivos fiscais nos estados de destino. Por trás de tudo isso, emerge a inegável influência exercida pela procura de opções para a diminuição de custos em face dos efeitos da abertura econômica.
Acrescente-se a possibilidade de barateamento dos custos de transporte dada a alternativa de escoamento da produção via multimodalidade (ferrovia e hidrovia) frente o sistema rodoviário. Estudo realizado pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) revela que, em 1996, o custo do embarque da soja no Porto da Madeira (Maranhão) era US$ 4,00 a tonelada contra US$ 9,00 em Paranaguá. Vale incorporar a restrição imposta pela capacidade máxima dos navios para embarque: 350 mil toneladas no Maranhão versus 70 mil toneladas Paranaguá.
Podem ser tomados como exemplo dessa corrente, o exôdo do parque calçadista do Rio Grande do Sul para a Bahia e o Ceará, a transferência de parte do parque frigorífico e têxtil de Santa Catarina para o Centro-Oeste (Perdigão Malharia Manz), e o deslocamento de parcela do crescimento agroindustrial paranaense para o Centro-Oeste e Nordeste, caso do projeto da cooperativa Batavo do município de Balsas (sul do Maranhão), incluindo a compra de 10 mil ha para o cultivo de grãos, a correção dos solos e a construção de casas e armazéns.
A segunda corrente equivale ao desvio do eixo de concentração industrial, sediado no Sudeste - devido a multiplicação das deseconomias de aglomeração, sintetizadas na saturação da expansão física das plantas, nas infra-estrutura deficiente, no elevado custo da mão-de-obra e na forte pressão dos sindicatos organizados - rumo às cidades de porte médio e grande no Centro-Sul do país, dotadas de infraestrutura adequada em transportes, energia e telecomunicações e despontando como localização geográfica e privilegiadas em relação aos mercados supridores e consumidores brasileiros e à regiões compradoras do Mercosul. Tal fluxo é atestado pelas recentes decisões locacionais das montadoras de automóveis Renault, Crysler, Volkswagen/Audi, no Paraná, e General Motors e Ford no Rio Grande do Sul, acompanhadas de seus principais supridores diretos.
O terceiro movimento, recente e surpreendente para a maioria dos analistas econômicos, trata da provável conformação de um pólo automotivo no Nordeste, resultado da adesão, de algumas multinacionais, ao regime especial de incentivos vigentes até o final do mês de maio de 1997, com a medida provisória 1532. No fundo, algumas desvantagens relativas regionais - como insuficiência de mão-de-obra qualificada, grande distância dos mercadores fornecedores e consumidores e precariedade infra-estrutural - foram anuladas por um pacote de benesses fiscais incluindo a isenção de IPI na compra de bens de capital, a redução do IPI na aquisição de insumos, a isenção do IOF no câmbio para a importação, a isenção do IR, a diminuição pela metade no IPI incidente sobre compras externas de automóveis (atualmente em 63%), entre outras.
Os projetos inscritos equivalem a US$ 2,9 bilhão (para Centro-Oeste, Norte e Nordeste), sendo 75% do valor concentrado no Nordeste e 50% apenas no Estado da Bahia. Não por acaso, as escolhas locacionais de todos os empreendimentos automobilísticos que antecederam a MP 1532, aconteceram em favor do Sul-Sudeste, articuladas com a comunidade científica e tecnológica, mercado e mão-de-obra especializada. Curiosamente, comente 11% do investimento programado para aquelas regiões, representado pela futuras fábricas de tratores e de caminhões, exibe alguma sintonia com as vocações regionais potenciais, determinadas pelos prolongamento da fronteira agrícola.
Diante desses cenários, parece razoável supor que a moderna indústria metal-mecânica, em germinação no Sul, gere proporcionalmente, maiores repercussões multiplicadoras dinâmicas nas cadeias produtivas, desde a instalação de condomínios de fornecedores contíguos à planta principal, até a dinamização de outros serviços complementares. Ao mesmo tempo, o parque agroindustrial do Sul está ingressando em nova fase de diversificação e capacitação e sofisticação tecnológica, puxada pela estrutura empresarial e pela atuação de outros grandes grupos privados.
Ademais, as plantas residuais dos complexo têxtil e calçadista devem intensificar os processos de reconversão produtiva, mediante modernização das linhas de produção. No limite, configura-se o abandono da tentativa de concorrência com os tigres asiáticos e a busca de suprimento de mercados mais exigentes como Estados Unidos, Itália, Espanha, Argentina, Chile e Uruguai.
No tocante aos expediente fiscais predatórios, como os incentivos que favorecem o Nordeste, é interessante notar que os mesmos acabam por prejudicar a adequada percepção da verdadeira competividade regional, demonstrada tradicionalmente na fruticultura e no turismo e, mais recentemente nos ramos têxtil e calçadista. Aliás, a relativa recuperação do Norte e Nordeste na composição da renda interna nacional pós-80 decorreu, de fato, da maturação plena de grandes projetos governamentais, em sua maioria estatais federais, divorciados da lógica da Sudam e da Sudene, que prioriza o emprego da renúncia fiscal na correção das disparidades regionais.

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