Com a elevação do poder aquisitivo e acesso ao crédito, a nova classe média brasileira tem se destacado em vários setores e com o de vestuário não é diferente. No ano passado, a classe C foi responsável por quase metade dos gastos com compra de roupas (48%,4%), o que representa R$ 35,3 bilhões. As classes A e B, por sua vez, gastaram R$ 24,5 bilhões (33,6%) e as D e E R$ 13,1 bilhões (18%). Os dados são da pesquisa ''O setor vestuário no Brasil - números e comportamentos'', realizada pelo Data Popular.
Conforme o estudo, em nove anos, os brasileiros ampliaram os gastos com a compra de roupas, descontada a inflação do período, em aproximadamente 68,4%. Em 2011, esse mercado atingiu R$ 72,9 bilhões.
O consultor do instituto responsável pela pesquisa, João Paulo Cunha, avalia que o aumento do consumo de roupas pela classe C é um fenômeno que se repete também em outras categorias de consumo. ''A nova classe média descobriu que pode adquirir bens que antes não conseguia dentro de seu orçamento'', observa. ''Se vestir bem também é uma forma de se preparar para voos mais altos no mercado de trabalho'', explica.
O sócio-diretor do Data Popular, Renato Meirelles, reitera que, ao contrário da elite, a nova classe média tem um pensamento funcional quanto à moda. ''Além de estar vinculada com autoestima e bem-estar, primordialmente, a moda está atrelada às suas perspectivas de vida, principalmente, a profissional. A mulher da classe média, por exemplo, pensa que para alcançar melhores postos no mercado de trabalho, precisa estar bem apresentável, e aí entra a necessidade da moda em suas vidas'', justifica.
O interesse em moda está em todas as classes sociais, havendo pequena variação entre a elite (72%), a classe média (66,6%) e as emergentes (66,9%). As classes A e B são as que mais consideram importante estar na moda, entretanto, há uma parcela significativa da classe C (52,1%) e das D e E (49,4%) que comungam desta preocupação. Na hora de ir às compras, os shoppings centers são os preferidos da elite (77,7%) e da classe média (61,7%). Já para as classes D e E, as lojas de rua continuam sendo as mais atraentes.
Seis em cada 10 pessoas emergentes ou da nova classe média gostam de usar roupas de marca; na elite são sete para 10. ''O poder da marca no universo popular vai além dos apelos estéticos. A marca é uma referência de qualidade, uma garantia de que o produto que está comprando tem durabilidade, e também uma comprovação de que melhorou de vida e não é obrigado a usar 'porcaria''', afirma Meirelles.
Segundo ele, a marca na nova classe média é vista como ferramenta de inclusão, enquanto na elite é um diferencial, uma forma de obter exclusividade. ''Ou seja, se o jovem da classe C adquire um tênis de marca renomada, ele visa apenas fazer parte do meio em que vive e ser aceito socialmente, enquanto o jovem da elite quer ser o diferente, ele quer aquele tênis que ninguém tem, e por isso vai comprar no exterior'', complementa o sócio-diretor.
Mudança estrutural
Para o professor de desenvolvimento econômico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fábio Scatolin, esse cenário reflete uma mudança estrutural na economia brasileira. ''A elevação do consumo da classe C é extremamente importante para determinar o ritmo de crescimento. Como na construção civil, as empresas vão investir para atender a essa demanda'', afirma.
Scatolin acrescenta que os três motores de crescimento da economia brasileira contribuem para esse processo: a produção e o consumo de massas - que tem a ver com a incorporação da classe C ao mercado consumidor -, exportação de commodities e o investimento em infraestrutura. ''É muito difícil ter essas três condições para fazer a economia crescer, mas hoje elas estão funcionando no País'', reitera.

Imagem ilustrativa da imagem Nova classe média lidera gastos com roupas
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