Notas sobre o Risco Brasil - 1
Por dever de ofício, há mais de 40 anos trabalho permanentemente fazendo avaliações de riscos, ora para empresas ou projetos específicos, ora para cenários macroeconômicos. As diversas metodologias empregadas não variam na essência, tanto para um caso como para os outros, pois a economia de um país é por definição a somatória das dos seus habitantes.
A atual discussão sobrcm
e o caso brasileiro propicia a oportunidade de se fazer um exercício sobre nossa realidade e estimar riscos, como nessas notas que extraí de um recente trabalho.
Risco Econômico da empresa Brasil
Comecemos por um apanhado sintético e com valores aproximados das contas nacionais, que se parecem com as contas de uma empresa, focando os últimos sete anos.
O endividamento externo privado saltou de US$ 61 bilhões em 1994 para US$ 119 bilhões em 2001, passando a representar perto de 25% do PIB. A dívida total do setor público evoluiu de R$ 153 bilhões em 94 (30% do PIB) para R$ 660 bilhões em 2001 (54% do PIB), parte dela vem sendo dolarizada e continua crescendo. A soma dos juros pagos na dívida pública total alcança a grandezas da ordem de R$ 700 bilhões nos sete anos, ou seja, mais da metade do PIB atual ou, ainda, 16 usinas de Itaipu.
Quando comparamos as receitas e despesas do governo federal constatamos que ele vem obtendo superávits. Entretanto, nesta conta não estão incluídos os juros da dívida interna, os quais representaram mais de duas vezes o superávit. Por isso, a dívida continua crescendo.
A carga tributária passou de 23% para 34%, crescendo perto de 40% e atingindo níveis que desafiam a capacidade contributiva de uma população que é muito pobre. Perversamente, este fato determinou que a sonegação fiscal tornou-se uma defesa generalizada dos agentes econômicos.
A evolução do PIB por habitante foi de 5,5%, menos de 1% ao ano, muito baixa tendo em vista as necessidades da sociedade. Mas se crescer mais rápido demandará mais infra-estrutura, que hoje já está comprometida por deficiências.
As contas externas nos últimos três anos têm apresentado rombos superiores a US$ 50 bilhões/ano, requerendo empréstimos e investimentos estrangeiros para se equilibrarem. Tais procedimentos vão determinando uma crescente vulnerabilização e dependência internacionais. Diga-se, alienação da soberania.
A política cambial durante todo o período manteve o dólar artificialmente barato, beneficiando as importações e dificultando as exportações de bens e serviços. Poderíamos configurar que o governo subsidiou os que venderam ao Brasil e criou uma espécie de imposto para seus exportadores. Adicionalmente, a crise da Argentina prejudica as exportações e poderá significar, em 2002, uma redução de US$ 3 bilhões, ou mais.
Somando-se o que o Brasil deixou de ganhar no comércio externo, em média US$ 12,4 bilhões/ano, e o que passou a perder, em média US$ 3,3 bilhões/ano, em sete anos deu de graça para produtores e empregados de outros lugares do mundo um mercado de mais de US$ 110 bilhões, mais de 20% do PIB. O pior está em que os países ricos defendem o livre comércio, mas a cada dia criam mais barreiras nos seus mercados, com sobretaxas (exemplos do aço, sucos, café) e especialmente subsídios para os produtos rurais.
Para manter o equilíbrio anterior, o dólar deveria estar cotado próximo de R$ 3,00.
A inflação medida pelo IPA e pelo IGP ultrapassam 100%, enquanto o IPCA - que é a medida oficial - fica em 78%, caracterizando a existência de inflação represada. Havendo ajuste no câmbio e crescimento econômico, automaticamente a inflação deverá aumentar levemente, entretanto, sem comprometer o importante equilíbrio relativo conquistado.
No período os juros primários variaram entre 60% e 17,5% ao ano, comprometendo o custo das dívidas internas e a competitividade da produção.
Analisando todos esses dados oficiais, conclui-se que a situação da empresa Brasil é bastante delicada e não tem recuperação no curto prazo.
Na edição do próximo sábado será publicada a conclusão do artigo.
* Luiz Antonio Fayet é economista, consultor de empresas, ex-deputado federal, presidente do Badep e do Banco do Brasil





