São Paulo - Em dois anos de governo Lula, do início de 2003 até o mês passado, os preços administrados subiram 25,37%, quase 40% mais que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 18,29%. O peso desses preços na composição da inflação é maior hoje do que era nos dois últimos anos do governo Fernando Henrique. Sua participação no IPCA saltou de 33,7% para 38,7%, o que reforça as dúvidas do mercado sobre a eficácia da escalada dos juros para frear a inflação.
A maior alta foi registrada pelos jogos lotéricos, que subiram 46,62%, seguidos pelo pedágio (44,86%), telefone fixo (36,67%), energia elétrica residencial (34,76%) e água e esgotos (34,15%). Essas altas não se combatem com juros, porque os preços administrados são regidos por um contrato e, na maioria dos casos, são indexados à variação do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), que por sua vez sofre forte influência do câmbio.
''É um aumento considerável, e uma das razões principais para isso foi o impacto da desvalorização cambial de 2002 sobre os preços administrados'', diz o economista Fernando Fenolio, da Rosenberg Consultores Associados, autor do estudo sobre a inflação no governo Lula. Naquele ano, segundo ele, o dólar teve valorização de 52,27% em relação ao real.
A pressão dos preços administrados ainda não acabou, observa o economista Marcelo Allain, professor do curso de MBA da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo. Pelos seus cálculos, os preços administrados subiriam 9% neste ano.
Nessas circunstâncias, para atingir a meta de inflação de 5,1% estabelecida pelo governo, os chamados preços livres da economia, que são sensíveis à elevação dos juros, poderiam subir só 3,5% no ano. ''A contenção desses preços terá de ser fortíssima para que essa conta bata'', afirma Allain.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skak, além de desaquecer a economia interna, as altas taxas de juros jogaram o câmbio para muito abaixo do que deveria, prejudicando a balança comercial do País. ''O foco principal a ser atacado é o gasto público, que precisa ser cortado, mas isso é um trabalho de médio e longo prazos. No curtíssimo prazo, o que é preciso é baixar os juros'', diz Skaf.
O Banco Central tem insistido na elevação do juro básico. Na semana passada, não só aumentou a taxa, pelo sexto mês consecutivo, para 18,75% ao ano, como sinalizou que continuará elevando a Selic em março. O problema é que os resultados desse forte aperto monetário têm sido pífios, principalmente sobre as expectativas do mercado. De setembro para cá, as previsões de inflação para este ano feitas pelo mercado caíram de 6% para 5,3% -uma queda de apenas 0,3 ponto porcentual.

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