Rio de Janeiro - Apesar do estardalhaço provocado pelo veto do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) à compra da Garoto pela Nestlé, a taxa de intervenção dos órgãos de defesa da concorrência em operações semelhantes no Brasil é praticamente a metade da registrada em países desenvolvidos. Segundo levantamento feito pela economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-conselheira do Cade, Lúcia Helena Salgado, 2,4% das operações avaliadas pelo órgão sofrem algum tipo de intervenção, enquanto na maioria dos países desenvolvidos a taxa chega a 5%.
''O nível de intervenção no Brasil é razoavemente baixo'', avalia Lúcia Helena, que usou em sua pesquisa todas as determinações do Cade na avaliação de um negócio, como restrições, obrigação de venda de marcas ou até veto, como ocorreu no caso da Garoto. ''As pessoas levam susto com uma decisão como esta, mas é um caso excepcional'', afirmou.
Para ela, o veto à operação demonstra o amadurecimento do Cade e terá o efeito de atrair investimentos para o País, ao contrário do que dizem os opositores da medida. ''A questão da concorrência é fundamental para atrair investimentos, pois ninguém vai querer investir em mercados concentrados'', avalia.
A opinião é compartilhada pelo economista Cláudio Considera, que também esteve no Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, ocupando a Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda. ''A própria Nestlé terá de fazer novos investimentos, se quiser manter sua posição no mercado brasileiro de chocolates'', aponta Considera.
Os dois especialistas se dizem surpresos, porém, com o poder de mobilização dos opositores do veto imposto pelo Cade, principalmente o governo do Espírito Santo, que vem se articulando para reverter a decisão. ''Eles falam inclusive em intervenção política para alterar a situação. Isso sim é que pode afugentar investimentos'', afirma.
''Certamente vai haver um novo comprador para a fábrica, que só não deve pagar o valor pago pela Nestlé, que pagou o preço do monopólio'', diz Considera, rebatendo um dos principais argumentos contrários ao veto.

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