Neurotecnologia com IA cresce em 2025 e atrai investimentos
Startup fundada por jovem londrinense que investiga o cérebro com inteligência artificial recebeu aporte de R$ 17 milhões de fundo internacional neste ano; conheça os planos de Daniele De Mari para o futuro da neurociência
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sábado, 27 de dezembro de 2025
Startup fundada por jovem londrinense que investiga o cérebro com inteligência artificial recebeu aporte de R$ 17 milhões de fundo internacional neste ano; conheça os planos de Daniele De Mari para o futuro da neurociência

Aos 26 anos, Daniele De Mari, neurocientista nascida em Londrina, quer ter o maior banco de dados neurológicos do mundo. Quem vê a pouca idade da profissional pode julgar que o sonho está distante, porém, com 21 anos ela já chefiava sua própria startup na área da saúde neurológica, com pesquisa em IA (inteligência artificial) aplicada à saúde do cérebro: a Neurogram. Com apoios essenciais, o pequeno negócio cresce a cada exame, aporte financeiro conquistado e nova contratação para a equipe.
O interesse pela temática começou cedo, quando era criança e passava suas tardes em clínicas e hospitais da cidade com a sua mãe e avó, buscando um diagnóstico que demorou duas décadas para ser descoberto. “A minha avó teve um câncer ósseo por 20 anos não diagnosticado. Ela ia em médico atrás de médico, sempre com uma dor no pé, nas costas, em algum lugar, pra tentar descobrir o que era. Ela falava que era dor de velho”, contou De Mari.
Sua paixão teve origem na indignação, por ter presenciado o “nascimento dos primeiros iPhones comercializáveis”, com a tela touch como “suprassumo da tecnologia”, enquanto que o empenho para inovação na saúde não era o mesmo. Relembrou ainda de um amigo que faleceu ainda criança por conta de um câncer no cérebro que demorou para ser identificado.
“Eu sempre gostei muito de fazer projetos para ciências, e todos que eu fiz foram voltados para a saúde. Sempre achei que a tecnologia devia ajudar a vida das pessoas, talvez com um diagnóstico mais rápido, mais preciso, ou mesmo cuidado paliativo. Temos tecnologias potentes, você fala, ‘meu Deus, o homem foi pra Lua, mas minha avó ficou com câncer por 20 anos’, então daí surgiu a minha maior motivação”, recordou a neurocientista.
Como funciona
Com sede em São Paulo, a healthtech apoia a comunidade médica a investigar o órgão mais complexo do corpo humano, com o uso de IA aplicada a EEGs (eletroencefalogramas). O exame avalia a atividade elétrica do cérebro, podendo detectar anomalias associadas à condições neurológicas, como epilepsia, tumores e AVCs (Acidentes Vasculares Cerebrais).
Com o auxílio da tecnologia desenvolvida pela Neurogram, o neurologista pode dar diagnósticos mais rápidos e precisos, identificando crises e status epiléticos em tempo real. Até o momento, desde o início das atividades da plataforma no início do ano, mais de 15 mil exames foram processados, com redução do tempo médio da jornada do laudo de EEG em 60%, diminuindo de 23 minutos para 9 minutos.
O pioneirismo visado pela profissional se aproximou ainda mais da realidade depois do apoio milionário de um fundo internacional, com o ano de 2025 marcado pelo maior aporte financeiro da história da startup. Anunciado em julho, a empresa captou R$ 17 milhões (US$ 3 milhões) em uma rodada seed com participação da Headline, liderada pelo empreendedor Romero Rodrigues. O recurso já está sendo usado para ampliar o alcance da plataforma, buscando impactar 100 mil vidas até o fim do ano.
Olhar atento
A Neurogram foi criada quando De Mari pesquisava sobre Interfaces Cérebro-Computador para controle de próteses no Instituto de Tecnologia da Geórgia, universidade nos Estados Unidos em que se formou em Neurociência. Em 2021, por conta da pandemia, teve que voltar para Londrina e recorreu a Elaine Keiko, neurologista e neurofisiologista, para continuar o seu trabalho à distância.

A médica emprestou um aparelho de eletroencefalograma que não utilizava, que De Mari apelidou de “monstrão”, porque era maior do que ela, e passou a ser auxiliada pela graduanda. A universitária ficou responsável por realizar o exame de Gabriel, menino de sete anos que enfrentava cansaço ao acordar. Confusa com os gráficos que observava, achou que o EEG estava “horrível” e refez o processo, que passou dos 20 minutos previstos para mais de duas horas.
“Troquei eletrodo, limpei a cabeça dele, que já estava dormindo, fiz tudo de novo. Pensei ‘esse exame não está legal, não sei o que faço, vou levar uma bronca’”, relembrou, contando que a médica tinha fama de ser brava - o que é um mito, garantiu. De Mari resolveu abrir o jogo e enviou uma foto do exame para Keiko, contando que não pôde “melhorar” as ondas cerebrais, sem entender o porquê.
Ela respondeu que não era culpa da estudante e que Gabriel estava tendo uma crise epiléptica, condição que levaria a perda neuronal permanente se continuasse por mais 30 minutos. O menino estava em POCS (Padrão de Ponta-Onda Contínua durante o Sono), crise sem sinais convulsivos aparentes que ocorria enquanto ele dormia.
O alerta “fez toda a diferença” para que ele não sofresse complicações definitivas, explicou Keiko. “Se ela não tivesse me avisado, ia passar um tempo até o dia da consulta, que às vezes leva dois, três meses, e ele ia continuar tendo as crises. Diminuição de atenção, retardar a linguagem, crises durante o dia, eram possíveis de acontecer. Hoje ele está super bem, fazendo as coisas na escola e inserido na sociedade”, celebrou a profissional, que se tornou Chief Medical Officer da empresa.
Aos risos, brincou que “o mundo capotou”, porque “a Dani era minha estagiária e agora ela é minha chefe”.
Da tecnologia à gestão
A ocasião foi a virada de chave para De Mari começar sua própria startup. “Se eu não sou médica treinada e vi que tem alguma coisa errada, não pode ter uma IA acoplada só pra falar que tem algo errado aqui?”, questionou a neurocientista na época.
A Neurogram nasceu com foco em IA para crises no encefalograma e decodificação de ondas cerebrais. A prioridade na tecnologia passou a dividir espaço com a gestão, visto que um problema para clínicas e hospitais que realizam exames neurológicos é a pluralidade de plataformas que médicos devem utilizar para emitir relatórios e assinar laudos. Foi por conta disso que, em 2023, entrou em cena o neurocirurgião Heitor Ettori, co-fundador da empresa, que impulsionou o olhar do produto voltado à dificuldade.
“As clínicas têm uma dor latente, não adianta trazer o melhor algoritmo de IA possível se o problema que elas têm é sincronizar o PDF, enviar um relatório para o paciente, um exame ser visto em tempo real. De que adianta eu trazer uma Ferrari numa casa de chão de barro?”, pontuou De Mari.
‘Tudo em um lugar só’
Por meio da plataforma SaaS, aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), médicos podem armazenar, gerenciar e laudar os EEGs em um só lugar, eliminando processos manuais. A Neurogram é compatível com todos os equipamentos do mercado, sendo “cinco softwares em um”, comparou a CEO.
A londrinense explicou que, sem o auxílio da ferramenta, um exame é baixado e compartilhado de maneiras arcaicas, com motoboys entregando o arquivo em pen drive ou CD para o médico laudá-lo, ou de formas que infringem a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), via Dropbox ou Google Drive.
Como um mesmo neurologista lauda exames para várias instituições, deve utilizar os softwares cabíveis para cada uma, sendo que “os sistemas não se conversam” e a assinatura e entrega dos laudos são feitas em outras plataformas distintas. Com a Neurogram, o envio para os médicos envolvidos e o paciente é automático, padronizando as informações criptografadas na nuvem com economia de tempo e dinheiro. “Obedece a LGPD e é uma segurança, porque esses exames precisam ser guardados por 20 anos, imagina no pendrive se isso vai ficar protegido por 20 anos”, considerou a neurocientista.

Passo a passo
O uso da plataforma é dividido em cinco etapas. A primeira é o paciente responder um questionário padrão para que seus dados clínicos sejam coletados antes da análise. Em seguida, o técnico de EEG conecta seu equipamento diretamente à Neurogram para que os exames sejam baixados de forma automática.
O terceiro passo é analisar as ondas cerebrais sem a necessidade de instalar softwares externos, seguido da assinatura digital certificada e com validade jurídica. Ao fim, o laudo é enviado automaticamente ao solicitante.
Em primeira mão
Elaine Keiko, médica que incentivou as ideias de De Mari logo no início, faz uso da ferramenta em sua clínica localizada na zona sul de Londrina. Para ela, “não ter atravessador” é a principal vantagem, além da facilidade trazida para suas técnicas de EEG, que já recebem os dados clínicos do paciente, via formulário, antes mesmo do início do exame.
“Se olharmos os softwares antigos, eles são da década de 80, 90, então têm um monte de botão, são pesados, muito coloridos. Imagina você trabalhar durante seis horas olhando traçado, isso cansa. Então a plataforma é mais fácil, rápida e menos penosa”, elencou a neurologista, que é especialista em epilepsia.
Como Chief Medical Officer, Keiko é a responsável médica da Neurogram e treina a IA empregada, atestando a veracidade ou falha de seus resultados e norteando as melhorias.

Expansão milionária
Atualmente, são 30 médicos de clínicas e hospitais espalhados pelo Brasil utilizando a tecnologia da empresa, com mais 70 instituições na lista de espera. Com o aporte de R$ 17 milhões da Headline, empresa global de capital de risco, o foco é expandir ainda mais a plataforma, explorando as diversas possibilidades do encefalograma.
“Sabemos que o EEG pode ser usado para vários diagnósticos, a gente quer olhar para mais biomarcadores de Alzheimer, autismo, TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), epilepsia, esquizofrenia e depressão”, objetivou De Mari.
Com o novo recurso financeiro, foram feitas três contratações para o time de tecnologia e uma para a equipe de suporte ao cliente. “Eu falo repetidamente: ‘eu quero ter o maior banco de dados de neurologia do mundo’. Com mais pessoas utilizando, significa mais suporte e mais tecnologia”, justificou a CEO.
O próximo passo é olhar para a estrutura de dados, visando a padronização. “Vamos entender qual é a queixa principal desse paciente, o que está havendo, se é Alzheimer, TDAH, autismo, epilepsia? Então, quem são as pessoas que estão passando aqui dentro?”.
Semente do sucesso
Antes de ir embora do Brasil para cursar Neurociência nos EUA, De Mari estudava em um colégio bilíngue em Londrina, o que impulsionou os seus conhecimentos na língua inglesa.
Mais cedo ainda, foi aluna do IEIJ (Instituto de Educação Infantil e Juvenil), escola “diferente com estudo livre” que despertou, inconscientemente, o seu desejo de ser empreendedora. “Tinha um baú de livros e você escolhia um, às vezes era um horrível, que você passava uma hora nele, ou você pegava o livro que tinha exatamente a resposta que precisava, só que você nunca sabia e não tinha um certo ou errado”, relembrou.
Traçando uma comparação, a neurocientista disse que “é assim para quem empreende, você tem que trilhar um caminho que não existe, tem que capinar um mato que não sabe para onde você vai”.
O incentivo para “aprender as coisas sozinha e criar do zero” anos atrás plantou a semente do sucesso atual de Daniele. Ela garante que os frutos que estão sendo colhidos não são finais, mas sim, “só um pit stop no caminho todo”.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


