Quando um bolo fica com a massa pesada, a culpa não é do fermento nem da mão de quem fez, mas da farinha. Quem diz isso é o pesquisador da área de negócios e tecnologia da Embrapa/Brasília, Ali Saab, que apresentou ontem em Londrina, durante um seminário promovido pela Fundação Meridional, um diagnóstico da cadeia produtiva do pão dentro do sistema agroindustrial do trigo.
No trabalho, ele avaliou mais de 50 cultivares de trigo e descobriu que apenas quatro servem para a cadeia produtiva do pão para o Norte do Estado. Saab dividiu o Paraná em três zonas de plantio, combinando a região com a variedade do trigo. Na região Norte, por exemplo, a variedade indicada é a ''pão''. Na região Sul, pode ser cultivado o tipo ''brando'' que serve para pizzas e, entre as duas regiões, deve usar o trigo melhorador.
Maior produtor de trigo, o Paraná consome 60% do produto ''pão'', mas nem todo trigo serve para fazer o pão. Isso significa que o Estado precisa melhorar a qualidade do trigo para competir no mercado, diz o pesquisador, sob o ponto de vista da variedade e segregação no plantio e no armazenamento. ''A segmentação do plantio é nossa proposta. Hoje, os moinhos estão com a faca e o queijo na mão, pois compram o produto de qualidade a preço barato e, depois, misturam todos os tipos de trigo''.
Segundo o pesquisador, o grande problema no Estado está no pós-colheita e armazenagem já que, muitas vezes, todo trabalho feito pelas instituições de pesquisas sobre os cultivares se perde porque as cooperativas não segregam o trigo. ''Elas misturam tudo, como se fosse tudo igual'', explica Saab. Se não misturassem, seria possível competir com o maior concorrente, a Argentina. Das 11 milhões de toneladas consumidas de trigo por ano no Brasil, pelo menos 50% é importada da Argentina. ''Lá, eles não misturam o trigo. Eles segregam, fazem marketing do produto e conseguem ter um custo de transação bastante barato. Se melhorarmos a qualidade, poderemos competir neste mercado'', enfatiza.
Saab avaliou toda a cadeia produtiva desde a produção de pesquisa e de sementes, produtores, cooperativas, moinho, padarias e consumidor e constatou ainda que cada um tem fatores críticos de qualidade e diferentes. ''Cada segmento da cadeia tem um problema e uma demanda. Não se pode dizer quem está certo ou errado, mas como devemos proceder para conseguirmos melhorar a qualidade do trigo no Paraná'', diz Saab, lembrando que a segmentação do plantio pode ser uma alternativa.

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