A adoção de incentivos para a instalação de novas montadoras de veículos no País a qualquer preço é, na avaliação de Mauro Zilbovicius, pesquisador da indústria automobilística, resultado da ‘‘inserção subalterna’’ do País no inevitável processo de globalização.
Para ele, os incentivos deveriam fazer parte de um pacote que definisse critérios para geração de empregos, formação de mão-de-obra e transferência de tecnologia. ‘‘A globalização não é uma via de mão única. O Brasil precisa do investimento externo, é verdade. Mas os investidores internacionais, e a indústria automobilística em particular, precisam também se instalar em países com mercados em crescimento, como o Brasil. Negociamos muito mal a entrada desses investimentos’’, avalia.
Para o pesquisador Glauco Arbix, grande parte dos incentivos ‘‘saiu de graça’’. Ou seja, esses recursos e essas empresas acabariam se dirigindo para o Brasil mesmo sem eles.
Além de distribuir incentivos sem critérios e deixar grande parte das iniciativas nas mãos de Estados e municípios, a falta de uma política industrial, na visão de Arbix e Zilbovicius, faz com que o Brasil não se beneficie da aquisição de novas tecnologias. ‘‘O regime automotivo não tem nenhuma palavra sobre transferência de tecnologia’’, disse Arbix. Consequência: todas as inovações tecnológicas estão chegando em caixas pretas, das matrizes das montadoras e dos fornecedores mundiais de autopeças, que se associam na elaboração dos projetos, mas apenas nos centros de produção.
Zilbovicius prevê que a indústria automobilística, além de cortar empregos, vai criar e manter postos de baixa qualidade. ‘‘O trabalhador linha de montagem ou procurar vaga nos bancos’’, disse.
Para sair do impasse, Arbix e Zilbovicius estimam que é preciso retomar a experiência que levou ao funcionamento das câmaras setoriais, no início dos anos 90. ‘‘A indústria automobilística nunca foi tão regulada e tão dependente do Estado como agora’’, diz Arbix. ‘‘Ao mesmo tempo, essa intervenção não passa pela consulta aos interessados diretos’’.

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