Negociações priorizam o emprego
Arquivo FolhaAmadeo quer importar experiência da flexibilidade salarialA polêmica idéia de que redução de salários é capaz de conter desemprego pode já estar sendo testada no Brasil. É cedo para ter certeza, mas a safra de ações coletivas do segundo semestre vai confirmar se começou ou não o ajuste de salários, afirma o especialista em trabalho e professor da USP, José Pastore. O silêncio de sindicatos de trabalhadores, diante da queda dos rendimentos dos empregados formais, e até mesmo os acordos de participação nos lucros ou resultados (PLR), apontando para ganhos menores do que no ano passado, são indicativos de que dinheiro deixou de ser prioridade, em favor do emprego.
O ministro do Trabalho, Edward Amadeo, citou recentemente a experiência americana de flexibilidade salarial como uma das responsáveis pelo pleno emprego naquele país. Para Amadeo, esse seria o caminho possível para o Brasil. O outro caminho seria a experiência européia, de rigidez de regras salariais, que, segundo ele, levam os índices de desemprego para as alturas.
Segundo Pastore, a queda da renda deve se dar entre trabalhadores com carteira assinada. Na prática, isso já começou em janeiro, quando trabalhadores da Volkswagen concordaram com a redução de seus salários indiretos (do subsídio para alimentação e transporte, por exemplo) e abdicaram do direito de tirar dez dias de férias em dinheiro, de modo a reduzir os custos com pessoal da montadora.
Depois foi a vez dos empregados da General Motors de São Caetano do Sul aceitarem a PLR em valor 5% menor do que no ano passado, em razão de meta de produção menor para 1998. Em setembro haverá negociação nacional de bancários e banqueiros. Petroleiros têm data-base no mesmo mês. Em novembro, será a vez de químicos e metalúrgicos. Não será espantoso se as grandes e organizadas categorias firmarem acordos de reajuste abaixo da inflação, diz Pastore.
Também para ele, o problema é descapitalizar empregados que sustentam saúde e previdência no País para toda a população. Segundo disse, o ajuste de salários para conter desemprego e facilitar contratações é esperado, e não chega a ser danoso em períodos de baixo crecimento da economia. Mas, especificamente no
Brasil, com a informalidade atingindo mais de 50% da população economicamente ativa, a perda de arrecadação do Estado será problema.
Isso vai ter consequências ruins, e quem se apressou em defender o trabalho informal como saída para o Brasil agora deve explicar o que fazer com o Sistema Único de Saúde (SUS) e com as aposentadorias. (L.P.)





