O raciocínio de que setores que estão tendo resultados menores tendem a dificultar recomposição de perdas salariais pode valer, por exemplo, para a indústria mecânica e de material elétrico, que tem data-base em abril. Mas o mesmo não se aplica aos metalúrgicos, que estarão negociando na mesma época. ''Esse é um setor que está exportando e registrando ganhos significativos. Por isso, a pressão dos trabalhadores para ter a reposição integral da inflação deverá ser maior'', diz a economista Sandra Utsumi, do BES Investimento.
Em maio será a vez da construção civil, dos distribuidores do serviço de água e esgoto, dos ferroviários, rodoviários e metroviários. Nesse bloco, enquanto a construção civil deverá ter reposições menores porque é um setor que normalmente já sofre com o aumento do salário mínimo, os três últimos são, tradicionalmente, setores mais organizados que devem brigar por ganhos mais elevados. A vantagem para o governo, nesse caso, é que quase sempre essas negociações são mais demoradas e os reajustes acabam ocorrendo nos meses seguintes. Assim, o possível efeito sobre a inflação seria jogado para frente.
A partir de junho, a situação vai ficando um pouco mais complicada porque, nesse período, estarão negociando reajustes salariais categorias como a dos portuários, eletricitários e trabalhadores da indústria da borracha. ''O dissídio dos portuários ocorre numa época crítica por causa do embarque de grãos'', observa Utsumi. Em junho também estarão negociando os trabalhadores da indústria de artefatos de couro e os farmacêuticos, mas a expectativa é que os acordos não sejam problemáticos.
Em setembro, engrossam a lista da briga por reajustes os petroleiros, trabalhadores do comércio atacadista e varejista e bancários, categorias fortes que normalmente costumam ter ganhos maiores. ''O principal são os petroleiros que vão querer um reajuste significativo e podem causar desgaste ao governo'', avalia a economista.
Já os bancários, no ano passado, pela primeira vez em muito tempo conseguiram um reajuste dentro do que estava sendo pedido, cerca de 7,5%. Este ano, eles deverão brigar pela recomposição integral da inflação acumulada nos últimos 12 meses, ainda mais porque os bancos vem registrando lucros consideráveis.
A previsão dos especialistas, no entanto, é que essas negociações só deverão terminar meses depois da data-base. Com isso, o mais provável é que o pagamento ocorra em outubro ou novembro, justamente o período em que a inflação acumulada em 12 meses deverá cair mais fortemente, de acordo com as previsões do governo e dos economistas. O IPCA só deverá cair abaixo dos 15% a partir de outubro.

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