Uma série de operações irregulares feita pela Freezagro Produtos Agrícolas, de Cambé, junto ao Banestado torna a empresa uma das maiores devedoras do banco no Norte do Paraná. Se fosse quitar sua dívida com o banco hoje, a empresa teria que desembolsar cerca de R$ 12 milhões. As informações são do presidente do Banestado, Manoel Campinha Carcia Cid, o Neco Garcia, que falou ontem, por telefone, com a reportagem da Folha.
A dívida começou em 94, quando a Freezagro tomou um empréstimo de R$ 7 milhões para investimento e capital de giro e deu como garantia um terreno onde seria construída a indústria. ‘‘Só que este imóvel está sub-júdice. Um grupo de Cambé está questionando na justiça a doação do terreno feita pela prefeitura’’, explica Garcia Cid.
A dívida cresceu ainda mais há dois anos, quando a empresa fez operações ilegais de desconto de duplicatas. ‘‘A Freezagro emitia duplicatas em nome de empresas de alimentos sem ter feito nenhum tipo de transação comercial com elas. Na hora em que ia vencer a primeira duplicata, ela descontava, no Banestado de Cambé, uma outra duplicata fria. Isto é uma forma de estelionato’’, diz Garcia Cid. A operação foi feita em conjunto com o ex-gerente do banco em Cambé, demitido do cargo por justa causa. Ele hoje responde a processo na justiça federal, segundo o presidente do Banestado.
‘‘Essas operações irregulares deram um prejuízo de R$ 4 milhões a R$ 5 milhões ao Banestado’’, conta Garcia Cid. Ele diz que quando o banco tomou conhecimento das irregularidades suspendeu o crédito da empresa. A dívida, que venceria no final do ano passado, conseguiu ser prolongada para 1999 devido a um ‘deslize’ de funcionários do banco, que aceitaram como garantia do prolongamento da dívida uma propriedade rural em São Jerônimo da Serra, de 900 alqueires, mediante apenas a apresentação da escritura de compra e venda do imóvel. ‘‘Só que esta propriedade não existe. Foi constatada fraude. A escritura falsa foi comprada num cartório de registro de Congonhinhas, que já foi fechado pela Corregedoria Pública’’, revela Garcia Cid.
Segundo o presidente do Banestado, os funcionários cometeram o ‘deslize’ ao aceitar a escritura sem o número de matrícula do registro de imóveis e sem exigir a apresentação do comprovante de pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR). ‘‘Quem fez a vistoria na propriedade rural foi o ex-gerente de Cambé. Mas mesmo depois dele ter sido demitido, o processo de hipoteca da propriedade continuou correndo’’.
Garcia Cid conta ter sido esta falha o motivo de o Banestado ter substituído o superintendente de Londrina nesta semana. ‘‘O superintendente antigo foi transferido para Curitiba para assumir a gerência de uma agência. Por ter assinado o prolongamento da dívida sem tomar os devidos cuidados para proteger o banco, ele também terá uma advertência anotada em sua ficha funcional’’.
Garcia Cid diz que o Banestado descobriu a inexistência da propriedade rural oferecida em garantia há três meses, quando foi aberta uma auditoria interna no banco.
No término do prazo para pagamento da dívida, em 1999, a Freezagro terá a pagar R$ 21 milhões ao Banestado - dívida acrescida de juros. ‘‘Só que, na minha opinião, a operação de prolongamento da dívida, feita em dezembro passado, deve ser nula já que a garantia oferecida pela empresa não existe’’, diz Garcia Cid. Ele afirma que o departamento jurídico do banco já está levantando informações sobre o caso. Se o prolongamento do prazo for anulado, os proprietários da Freezagro deverão ser chamados pelo Banestado para dar explicações e uma garantia real da dívida. ‘‘Se eles não fizerem isso, serão executados pelo banco e obrigados a pagar’’. Segundo Garcia Cid, a solução do caso pode levar um ano. O presidente do banco calcula que, atualmente, para se construir uma indústria similar à Freezagro, seriam gastos entre R$ 6 milhões a R$ 7 milhões.
A Folha tentou ouvir a Frezagro ontem mas não conseguiu contato com nenhum diretor.

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