'Não recebemos a atenção que merecemos'
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terça-feira, 31 de maio de 2005
Célia Guerra<b>Reportagem Local 
''Perdi no café e vou perder na soja. Agora vou partir para o plantio do feijão''. O desabafo é do produtor Luís Bolsorim, 69 anos, de Terra Boa (46 km ao norte de Campo Mourão), que ajudou a engrossar a fila dos cerca 10 mil produtores que participaram do protesto realizado ontem, em Londrina. Ele trocou a cultura do café, há um ano, por não ter condições de investir na renovação da lavoura.
Mesmo tendo se beneficiado das linhas de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), Bolsorim teme não ter condições de quitar o débito de R$ 6 mil utilizados na mudança de cultura. Além dos prejuízos com frustração da safra de verão, o produtor reclama do percentual de Reserva Legal exigido pela legislação ambiental. ''Minha propriedade tem 5 alqueires, dois deles são só de mata. É uma fatia muito grande. Mato demais dá prejuízo para o País'', concluiu.
Já o produtor Aldo Layter, de Marechal Cândido Rondon (90 km a oeste de Cascavel), afirma ter uma dívida de R$ 50 mil relativos às despesas de custeio e o financiamento de um trator. A safra de soja colhida teve um rendimento de 90 sacas por alqueire. ''Não é uma média tão baixa, mas comprei insumos com o dólar alto. A lucro, que seria para empatar, agora não vai dar para pagar o banco'', reclamou.
''Não sei fazer outra coisa, senão plantar. Se eu desistir o que vou fazer?'' questiona o produtor rural Vanderlei Roberto Sarri, de Paiçandu (10 km a leste de Maringá). Dono de uma propriedade de 70 alqueires junto com seis irmãos, ele diz que financiou pelo menos 80% da safra e deve no banco quase R$ 200 mil. ''Tenho tratores e maquinários, tudo financiado há três anos e não posso nem vender para pagar as dívidas. Vivo no campo desde que nasci e nunca vi uma situação dessas'', comparou ele.
Outro que disse estar devendo cerca de R$ 600 mil para os bancos e cooperativas é o presidente do Sindicato Rural de Terra Boa, Roberto de Lucas Bittencourt. ''Estou tomando até antidepressivo. Essa é a pior crise que já vivi na agricultura'', comentou ele, que plantou 300 alqueires de soja em sociedade e teve perdas em torno de 40% por causa da estiagem.
Além de produtores endividados a manifestação ganhou o apoio também de produtores que estão conseguindo se manter na atividade com recursos próprios. Como é o caso de Nésio Clemes, 68 anos, de Ivatuba (30 km a oeste de Maringá). O segredo para tocar a propriedade de 10 alqueires, segundo ele é ''segurar a mão''. ''Meu trator mais novo tem mais de 20 anos, mas ainda aguenta o trabalho''. Ele reclamou da falta de apoio do governo federal principalmente para uma política de preços mínimos. ''Não estamos recebendo a atenção que merecemos'', resumiu.


