Mutuários inadimplentes compram o próprio imóvel nos leilões da Caixa
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sábado, 14 de julho de 2001
Carmem Murara e Luciano Augusto De Curitiba e Londrina 
Quando a Caixa Econômica Federal abrir nesta semana mais um de seus tradicionais leilões de imóveis tomados devido à inadimplência, certamente estarão sentados entre os participantes alguns dos próprios mutuários com a esperança de comprar o mesmo imóvel perdido por falta de pagamento. A situação parece surreal e dificilmente seria entendida por um estrangeiro, mas tem se tornado uma prática cada vez mais comum no tumultuado Sistema Financeiro Nacional. As pessoas descobriram que é mais fácil e barato arrematar seus imóveis à vista e pelo preço de mercado naturamente, opção que só vale para quem tem dinheiro em caixa a continuar pagando prestações intermináveis, em que o saldo devedor aumenta quase que em progressão geométrica.
A Caixa reconhece que esses casos estão proliferando em todo o País. O processo parece simples. O mutuário deixa de pagar as prestações e torna-se inadimplente. A Caixa consegue na Justiça tomar o imóvel e o leva a leilão. Na hora de dar os lances, está lá um parente ou amigo de confiança do mutuário para comprar o mesmo imóvel. Depois é só transferir a posse para o dono original. Vender para irmão, parente, amigo. Acontece de tudo, diz um funcionário da Caixa que prefere não divulgar o nome.
Situação semelhante ocorreu com o contador curitibano Claiton Tavares da Silva. Em 1993, ele havia financiado um apartamento de 67 metros quadrados, com três quartos, no Bairro do Portão, em Curitiba. Pagou o equivalente a R$ 15 mil por três anos. As prestações que eram de R$ 160,00 e comprometiam 10% de seu salário saltaram para R$ 1,1 mil, comprometendo quase 90% de sua renda. Descobri que meu saldo devedor estava em R$ 70 mil e faltavam 17 anos para terminar o financiamento, conta.
Pela cotação de mercado, o imóvel valia R$ 35 mil. Ele tentou negociar com a Caixa a quitação do imóvel pelo valor de mercado, mas não houve acordo. Seu apartamento foi tomado e levado a em leilão pelo valor de mercado. O contador deu um lance e conseguiu arrematar por R$ 25 mil o apartamento localizado no andar abaixo ao seu, cujo vizinho também havia se tornado inadimplente. Até hoje a Caixa não conseguiu vender o imóvel de Claiton Silva.
Em Londrina, os mutuários inadimplentes também estão usando este artifício. O exemplo vem do casal J.G.P e C.B. O pai de J.C.P., a pedido do filho e com recursos do casal, aproveitou que o imóvel de 123 metros quadrados foi levado à leilão pelo preço de mercado de R$ 45 mil e comprou, em seu nome, o apartamento que já era do filho. Ela conta que quando adquiriu o imóvel, foi avaliado entre R$ 50 e R$ 60 mil. Mesmo dando uma entrada de US$ 10 mil e pagando as prestações durante mais de três anos, C.B. aponta que o saldo devedor já estava em mais de R$ 80 mil.


