Numa tentativa desesperada para evitar a falência da Encol, os mutuários conseguiram que o presidente da construtora, Pedro Paulo de Souza, concordasse em transferir o controle acionário para os 42 mil mutuários da empresa e para seus funcionários. Com isso, o representante da Associação Nacional dos Mutuários da Encol, Charles Belchieur, espera afastar o perigo que representam as cinco mil ações contra a empresa, movidas em todo o País.
‘‘Foi um ato desesperado para evitar a falência’’, declarou Charles Belchieur, que ainda não sabe como será feita esta transferência. Charles Belchier acredita que, com os mutuários e trabalhadores no Conselho de Administração da empresa, será possível suspender as ações que correm na justiça. Ele assegurou que a Encol passará a ser administrada por gente competente, contratada no mercado financeiro para viabilizar a retomada das obras.
Os oito pedidos de falência, entretanto, que tramitam no Juizado de Falências do Distrito Federal e mais os 74 pedidos existentes em todo o País são, basicamente, de fornecedores. Se o juiz decidir pela decretação da falência, com base num destes pedidos, a única coisa que poderá suspender a ação é o pagamento, por parte da empresa, do montante da dívida solicitada pelo credor.
Para evitar isto, Charles Belchieur diz que os mutuários passarão a negociar, imediatamente, com os fornecedores que entraram com ação de falência. ‘‘Na falência todos perdem, inclusive, os fornecedores’’. Foi o próprio Charles Belchieur que, acompanhado por mutuários e representantes dos empregados da empresa, convenceram Pedro Paulo a transferir o controle.
Ontem houve reunião no Ministério da Justiça, sob o comando do ministro Iris Resende, para tentar uma solução para a Encol. Participaram o presidente da Caixa, Sérgio Cutolo, o diretor de Crédito Geral do Banco do Brasil, Édson Ferreira, além de Charles Belchieur e representantes dos empregados da empresa, do Ministério Público e o juiz de falência do Distrito Federal, Everardo Alves Ribeiro. Nova reunião está marcada para a próxima quarta-feira.
Charles conta que saiu da reunião no Ministério da Justiça convencido de que não existe a falência negociada. ‘‘A única coisa que temos é a falência selvagem mesmo’’, disse. Por isso, logo no início da tarde, procurou Pedro Paulo para uma reunião, convencendo-o que a única saída seria o seu afastamento em benefício dos mutuários e dos funcionários.
Sem ajuda O governo não alterará a lei ou editará qualquer medida provisória para salvar a Encol, garantiu ontem o presidente da Caixa Econômica Federal, Sérgio Cutolo. ‘‘Este governo não é hospital de empresas falidas’’, disse o presidente da CEF, para explicar que toda vez que se fala em achar uma saída com novas regras está implícito um saque ao cofre do Tesouro.
Sérgio Cutollo terá de explicar à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados o destino dos recursos públicos investidos na Encol. Segundo o presidente da Comissão, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), os parlamentares querem explicações sobre o fato de o governo ter mantido a concessão de recursos à construtora quando esta já constava da lista de devedores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e da Receita Federal. ‘‘Queremos saber se as atitudes foram corretas’’, diz.
Chinaglia pretende também pedir uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) na empresa, na tentativa de descobrir o que aconteceu com o dinheiro público investido na Encol. ‘‘Vamos fazer pressão e tentar diminuir os prejuízos dos cofres públicos’’, promete o parlamentar. Ele admite, no entanto, ‘‘que não há muito o que possamos fazer em favor dos mutuários’’. Hoje Chinaglia recebeu o presidente da Associação Nacional dos Mutuários da Encol, Charles Belchieur, e o ex-interventor da empresa, Jorge Washington, mas ‘‘a reunião foi apenas um relato dramático da situação dos mutuários’’.

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