Enviar peixe fresco aos Estados Unidos transformou-se numa tarefa mais difícil que o normal depois dos ataques terroristas contra Washington e Nova York. Após o fechamento dos aeroportos norte-americanos na semana passada, caixas geladas com salmão das Ilhas Shetland ficaram paradas no Aeroporto de Heathrow, em Londres, enquanto os responsáveis pela carga aguardavam ansiosamente pela retomada dos vôos. O fedor de peixe apodrecido deu apenas uma dica dos potenciais problemas que poderão enfrentar empresas de todo o mundo que têm negócios com os EUA.
Enquanto a tensão pelos ataques da semana passada se estabelece, ampliam-se os temores de que a já enfraquecida economia global desabe em uma recessão. E num mercado cada vez mais globalizado, os laços comerciais e financeiros entre empresas e países podem disseminar uma crise econômica de um modo nunca visto antes. ''Já estamos sentindo os efeitos'', disse Marcelo Faria de Lima, sócio da agência de publicidade brasileira EugenioMFL. ''Ainda não recebemos nenhum cancelamento, mas os clientes estão parando para pensar, refletir, analisar o impacto dos ataques contra os Estados Unidos sobre seus negócios e o enfoque dos anúncios.''
Os efeitos poderão se espalhar se a confiança do consumidor norte-americano desabar como resultado dos atentados. Entre as empresas e as nações que poderiam ser prejudicadas, estão aquelas que negociam commodities, como o trigo do Canadá, o petróleo da Nigéria e as tulipas da Holanda. O fabricantes de produtos como os videocassetes de Taiwan e os carros da Alemanha devem sentir o golpe, assim como os bancos, as agências de viagens e outras companhias de serviços.
Se o consumo e os negócios diminuírem, a Rússia, a Argentina e outras economias em crise terão mais dificuldade para obter empréstimos estrangeiros necessários para pagar pelas importações e criar emprego para seus exércitos de desempregados.
Michael Saunders, economista da Salomon Smith Barney em Londres, acredita que a globalização aumentou as chances de um recessão nos Estados Unidos afetar a Europa. A proximidade no comércio e os laços financeiros entre empresas norte-americanas e européias poderiam disseminar o sofrimento. O Japão, dono da maior economia do mundo depois dos EUA, afundou numa recessão causada em grande parte por problemas internos e não deve ser tragado tão rapidamente quanto à Europa no caso de uma desaceleração norte-americana. No entanto, Saunders argumenta que a globalização seria incapaz de acelerar ou aprofundar sozinha uma recessão. ''Não acho que ela amplie a miséria'', comenta.
A interdependência econômica dá às companhias uma flexibilidade sem precedentes para fornecer suprimentos e vender seus produtos. A J. Sainsbury's, uma das maiores redes de supermercados da Grã-Bretanha, importa laranjas espanholas, maçãs da Nova Zelândia e cereais norte-americanos. ''Se os estoques diminuírem um pouco, podemos comprar de outros países'', diz a porta-voz Catherine Rees.
Autoridades aeroportuárias norte-americanas pretendem aumentar a segurança nos aeroportos e inspecionar as cargas mais de perto, o que deve causar mais atrasos à liberação das cargas, maior burocracia e aumento dos custos de transportes. Se estes obstáculos começarem a ficar insuperáveis, os pescadores de salmão das Ilhas Shetland, no norte da Escócia terão de espalhar seus peixes pela Europa continental.
Ainda assim, a globalização criou uma série de perdedores potenciais. Os países dependentes de comércio do Sudeste Asiático já estão sentindo a diminuição da demanda de seus bens manufaturados por Estados Unidos e Japão. Como consequência, o valor diário dos fretes nos contêineres dos navios de carga que cruzam o Pacífico caiu de US$ 15.000 em setembro do ano passado para US$ 8.950 este ano, disse Steve Willcox, um analista de mercado da empresa de fretes H. Clarksons & Co.
O grupo industrial alemão Siemens, que gastou US$ 9 bilhões para adquirir empresas norte-americanas nos últimos três anos, hoje enfrenta um mercado americano retraído para seus programas de computador e outras tecnologias de informação. ''Eu não diria que as coisas estão maravilhosas'', diz Doris Larmann, porta-voz da Siemens para a América do Norte.
As cadeias de hotéis poderão sentir o golpe se os executivos e turistas ficarem em casa. A Accor, maior rede hoteleira da França, poderia enfrentar tempos difíceis para lotar seus luxuosos hotéis Sofitel, diz Jennifer Guest-Cagirtekin, estrategista da corretora londrina Gerrard.
Mas uma economia global em recessão ainda oferece oportunidades. A Tandberg, uma fabricante norueguesa de equipamentos de teleconferência, prevê um grande crescimento na demanda após os ataques da semana passada. ''Os negócios prosseguirão e as pessoas precisarão se reunir e conversar'', diz Terje Rogne, diretor financeiro da Tandberg. ''Se você não pode viajar, qual a alternativa? A videoconferência.''

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