Múltiplas vidas
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 

Há 12 anos no mercado de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) de Londrina, a Guenka começou como uma startup incubada na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Entre 2006 e 2007, graduou-se e se tornou uma empresa. Mas o caminho até superar os dez anos de existência foi cheio de altos e baixos, como conta a própria fundadora, Jandira Guenka. "Tivemos que nos adaptar ao mercado várias vezes. Acabamos diversificando a proposta inicial, e mesmo hoje a empresa tem altos e baixos."
Pesquisa divulgada em julho desse ano pela Startup Farm sobre o panorama das startups no Brasil mostrou que 18% das 191 startups da aceleradora "morreram" com até dois anos de funcionamento. Outras 66,7% acabaram com dois a cinco anos de funcionamento e 73,7% com mais de cinco anos de funcionamento. Os principais motivos para a "mortalidade" das empresas seriam conflitos entre sócios e o desalinhamento entre proposta de valor e o interesse do mercado.
Outro estudo, realizado pela Fundação Dom Cabral com 221 startups até 2014, revelou que 25% das startups morrem logo no primeiro ano de vida, e que metade delas é descontinuada em menos de quatro anos. Três fatores explicariam a alta taxa de mortalidade: o número de sócios quanto mais sócios, maiores as chances de conflitos -, o volume de capital investido antes do início das vendas, e o local de instalação. Quando a startup está em uma aceleradora, incubadora ou parque, as chances de descontinuidade são menores, diz a pesquisa.
A Guenka começou com a proposta de trabalhar com simulações da indústria em Realidade Virtual para mostrar como elas poderiam melhorar sua produtividade. Foi aí que a então startup viu que as indústrias não tinham informações suficientes para o desenvolvimento das simulações, e resolveu mudar o foco do negócio para sistemas de monitoramento de chão de fábrica. Muito recurso, tempo e pessoal foram dispensados para implantar o sistema, e em busca de um negócio mais escalável, a empresa partiu para sistemas embarcados voltados às OEMs (Original Equipment Manufacturer, ou fabricantes de equipamentos originais) da indústria automotiva.
"Ficamos bastante tempo nesse mercado, mas houve uma baixa nos projetos." Hoje, a Guenka continua prestando serviços de desenvolvimento de software, mas passou a repensar na forma de startup abrigando, dentro dela, o projeto de um aplicativo de encartes de supermercado em busca da almejada escalabilidade o Cheep App. O projeto está em fase de investimento. "Se apostássemos todas as nossas fichas em apenas uma frente, ficaria difícil fazer a manutenção da empresa."
É isso que, na opinião do consultor do Sebrae Londrina, Fabrício Pires Bianchi, acontece com as startups quando não dão certo: elas se adaptam ou se reinventam, dando origem a um novo ou diferente produto ou serviço. "Quando falamos de startups, a dinâmica é outra", comenta Bianchi, discordando das pesquisas sobre a mortalidade dessas empresas. Para ele, a dinâmica das startups permite que elas se adaptem ou se reinventem rapidamente, sem precisar "fechar". "Elas não encerram o CNPJ. Depois de um período, acabam se reinventando ou se adaptando." Das 239 empresas atendidas pelo Sebrae em Londrina, 56 já se formalizaram, afirma o consultor.
O professor da Fundação Dom Cabral, Carlos Arruda, opina que as chances de sobrevivência das startups estão crescendo uma vez que, hoje, existem mais instrumentos de apoio a essas empresas. "O que observo é que há muitas iniciativas as preparando melhor para lidar com as dificuldades." Porém, ele diz acreditar que as taxas de mortalidade das startups continuam altas e que esse fato não deve ser encarado negativamente. "Hoje, temos trabalhado com a lógica de empreendedorismo em série. Preparamos as startups para criarem uma, duas, dez empresas e usarem o conhecimento adquirido com a experiência anterior como bagagem para a próxima. Em startups, mortalidade não é ruim. Ruim é não aplicar o conhecimento em uma nova empresa."


