Mulheres trabalham mais, estudam mais e ganham menos
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quarta-feira, 07 de março de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e estatística) divulgou nesta quarta-feira (7), as Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. O documento aponta que elas recebem 76,5% da média salarial dos homens, mesmo trabalhando mais na soma da jornada total. Afazeres domésticos são responsáveis pela maior proporção feminina no trabalho em tempo parcial (28,2%) em relação a masculina (14,1%). No Paraná, o rendimento médio mensal entre eles é de R$ 2.529, enquanto o delas é de R$ 1.883.
A proporção maior de mulheres no trabalho parcial (até 30 horas semanais) pode estar relacionada aos afazeres domésticos. No Brasil, as trabalhadoras se dedicam 73% mais do que os homens (18,1 horas contra 10,5 horas) na combinação de trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados de pessoas. "Na jornada total, em que se soma o profissional e doméstico, as mulheres trabalham 54,4 horas semanais contra os 51,5 horas dos homens. A mulher tem tempo parcial e mais afazeres. Os homens tem o tempo integral (profissional) e, mesmo assim, somando os dois, as mulheres superam em 3 horas", explica João Hallak, pesquisador da coordenação de indicadores sociais do IBGE.
A carga horária é uma questão fundamental na diferença ocupacional entre os gêneros. A conciliação entre as tarefas domésticas e profissão acabam levando mulheres a ocupar posições com carga horária reduzida. Mesmo assim, quando analisadas horas trabalhadas, em 2016, a parcela da desigualdade diminui, mas registra diferença de 13,3%. Segregação ocupacional e discriminação salarial no mercado de trabalho são apontados pelas pesquisa como possíveis fatores de permanência da desigualdade.
As diferenças de rendimento são maiores nas regiões Sul (74,6%) e Sudeste (70,6%). Segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, do 4º trimestre de 2017, o Amapá é o estado com menor diferença salarial, em que mulheres recebem 97,3% do rendimento masculino. O Paraná ficou com a 22ª posição, demonstrando uma diferença de 25,5%. "O Paraná, assim como outras unidades da federação que têm estrutura mais desenvolvida possuem essa característica. Lá (região Norte), a grande maioria das pessoas já ganham menos, então é uma igualdade em baixos valores", afirma Julio Suzuki Junior, diretor-presidente do Ipardes (Instituto Paranense de Desenvolvimento Econômico e Social).
AVANÇO
Embora ainda haja diferenciação salarial, a desigualdade vem diminuindo. Em 2012, as brasileiras recebiam 73,7% da remuneração masculina, demonstrando evolução de 2,8 pontos porcentuais em 4 anos, quando o Brasil registrou 76,5%, em 2016. "Até 2014, grande parte desse ganho de participação foi o aumento do salário mínimo, que reflete, sobretudo, às empregadas domésticas, atividade de predominância das mulheres. Em 2015 e 2016, a crise econômica, atingiu a todos, mas, em grande parte, a indústria e construção, atividades predominantemente masculinas", explica Hallack.
Outra questão apontada pelo diretor-presidente do Ipardes é que as mulheres estão estudando mais. De acordo com o IBGE, a instrução feminina é de 37,9% maior quando se trata de nível superior. No Paraná, elas representam 28,2% de empregadores formais com nível superior completo, enquanto eles têm 14,3% de participação.
Carga horária menor ajuda a conciliar tarefas

Trabalhar meio período às vezes não é escolha, mas necessidade. Na busca de conciliar casa, filhos e ocupação remunerada, muitas mulheres acabam procurando por menor carga horária de trabalho. Keila Cristina Maistrovicz, 43, é atendente e afirma que, apesar de o foco da busca pelo emprego não ter sido a carga reduzida (36 horas semanais), a vaga veio a calhar.
"A minha filha é maior de idade, eu não preciso cuidar dela, mas para os afazeres de casa é melhor, porque a gente tem um tempo maior", relata. A atendente aponta que algumas colegas de trabalho escolheram o cargo porque precisavam desse tempo. "Principalmente quando se tem filhos pequenos, elas preferem a carga horária menor pela facilidade mesmo", argumenta.
Segundo Julio Suzuki Junior, diretor-presidente do Ipardes (Instituto Paranense de Desenvolvimento Econômico e Social), este seria um dos fatores para a remuneração mais baixa entre mulheres, mas que não justifica a desigualdade. "A maior proporção de mulheres que se dedicam a jornadas parciais de trabalho, além de algumas atividades caracterizadas por rendimentos abaixo da média, como o trabalho doméstico (predominantemente ocupado por mulheres), são fatores que puxam um pouco esse rendimento para baixo. Mas óbvio que isso não explica tudo, com certeza ainda há uma discriminação em relação ao trabalho feminino", defende o especialista.
Para Maistrovicz, o foco vai além da carga horária, a prioridade foi a oportunidade de crescimento. Como trabalha desde os 14 anos, viu que nem todas as empresas oferecem esta perspectiva. "É mais difícil para mulheres, primeiro por ser mulher, segundo pelas obrigações que elas têm, como serem mães, tem a licença maternidade, um filho pode ficar doente e a mãe ter que levar ao hospital", destaca.
A atendente está contente com o que o emprego atual oferece. "O salário é padronizado no cargo em que eu estou. Fora da empresa eu já vi muita diferença". Apesar da desigualdade, acredita que há um maior interesse das mulheres na profissão e na busca por cargos de liderança. "Elas estão mais abertas para aprender, ouvir e respeitar opiniões", acredita.


